segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

Haverá vontade e coragem?

Ninguém pode negar que se tem vindo a assistir a um crescendo de tomada de consciência e de sensibilização por parte da população mundial, no que se refere às ameaças decorrentes do aumento de emissão de gases com efeito de estufa, sobre a vida no planeta. Os grupos de pressão que entretanto se foram criando, levaram a nova administração americana a rever a posição conservadora que até aí detinha, criando uma política de economia verde. No mundo ocidental onde vivemos e melhor conhecemos, sabemos que todos os partidos políticos passaram a incluir nos seus programas, as denominadas políticas do ambiente e a necessidade de maiores investimentos em energias alternativas (energias verdes).
Todos certamente estão de acordo quanto à positividade destes sinais. Dá para perceber que as posições e as mentalidades estão de facto a mudar um pouco por todo o mundo. No entanto, será suficiente o que as nações estão neste momento a executar em prol da diminuição da emissão dos gases com efeitos de estufa? Os especialistas mais conceituados dizem que não. Estes afirmam que a ameaça é real e que quanto mais tempo se demorar a reagir objectivamente, mais e maiores esforços serão despendidos. Acrescentam ainda que as alterações climáticas estão efectivamente a acontecer e que um dia poderão atingir o patamar de irreversibilidade, sem que ninguém possa informar antecipadamente quando esse dia irá chegar.
Não quero ser pessimista e muito menos alarmista, mas tenho que ser realista e afirmar que não posso deixar de olhar para este nosso mundo com alguma inquietação. Sei que para enfrentar os desafios globais é preciso mais cooperação entre as nações e elevar os níveis de solidariedade internacional a uma escala nunca antes vista, sendo que é aos povos mais ricos que serão exigidos os maiores sacrifícios. O mundo atravessa uma fase de crise internacional, na qual a credibilidade moral de pessoas influentes, ficou seriamente manchada. A própria crise fez com que os países olhem mais para dentro do que para fora. Por outro lado, não é menos verdade que se assiste a um enfraquecer de legitimidade das lideranças nas sociedades modernas, o que mina a mobilização e o desenvolvimento de ideais.
Terão os povos ocidentais dispostos a alterar profundamente o seu modo de vida e a contribuir solidariamente e generosamente com o resto do mundo subdesenvolvido? Estarão os países emergentes, China e Índia, dispostos a retardar a sua saída do subdesenvolvimento? Se estiverem, em que condições e a que preço? Será possível criar consensos a nível global sobre compromissos e acções a implementar, nos quais todos se sintam compensados e ninguém se sinta lesado?
Se formos capazes de responder de forma positiva e muito rapidamente a estas questões, então poderei ser levado a acreditar que talvez possamos estar à altura do desafio.
Serrone

sábado, 27 de Junho de 2009

As soluções existem.


Para salvar o planeta para vida, antes de mais é preciso que o homem tenha aprendido com os erros do passado e tenha percebido que o actual rumo da actividade humana não é sustentável. Os problemas são globais e por isso exigem soluções globalmente assumidas por todas as nações do mundo, sem excepção, para que se evite e minimize os principais riscos que a humanidade enfrenta.
Como já escrevi em crónicas anteriores, em teoria é possível levar o crescimento económico e a criação de riqueza a cada vez mais regiões do planeta, preservando as condições ambientais necessárias à vida. A dificuldade em atingir esse objectivo tão ambicionado, não está na falta de soluções técnicas e economicamente viáveis, mas tão só na dificuldade das nações cooperarem globalmente entre si, para implementar essas soluções.
Na verdade, no passado recente foram dados importantes passos, tendo a maioria das nações adoptado um quadro de compromissos globais partilhados, fundamentais à criação de um futuro comum sustentável. Estou a referir-me, entre outros aos princípios que resultaram da Convenção – Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima mais conhecido por Protocolo de Quioto, da Convenção Sobre a Diversidade Biológica e da Declaração do Milénio que inclui os oito Objectivos de Desenvolvimento do Milénio.
Lamentavelmente, apesar de todos estes acordos serem apresentados ao mundo com alguma pompa e circunstância, o quadro de intenções nele contidos, tem ficado mesmo por ai, por intenções. Os Estados Unidos, a maior economia do mundo, aquela que mais tem contribuído para a insustentabilidade ambiental, não ratificaram nenhum dos tratados mencionados. As sucessivas administrações da maior potência mundial, têm-se mostrado incapazes de vencer os lóbis, sempre adversos a mudanças que eventualmente lhe possam trazer perda de domínio económico e financeiro.
Barak Obama apresentou-se aos americanos e ao mundo com vontade de iniciar o processo de mudança, falando de um novo “paradigma da economia verde”, da necessidade do estado assumir a protecção dos valores sociais, ambientais e culturais para se construir uma nova prosperidade comum. O novo presidente parece querer cortar com as amarras do passado que nos estavam a levar para o abismo, por essa razão vejo renascer a esperança. O mundo precisa de uma liderança forte que nos guie a todos no caminho da sustentabilidade. A crise económica e financeira não poderá ser um óbice, mas sim uma janela de oportunidades para os líderes mundiais se empenharem em alcançarem os objectivos globais. É necessário reinventar a forma de se efectivar a cooperação global, de mobilizar todos os governos, as organizações internacionais, o sector privado e as organizações académicas e não governamentais.
O poeta Wallace Stevens escreveu: “ Depois do não final vem um sim. E deste sim depende o futuro do mundo”. Muitos nãos vão certamente ainda ser ouvidos, disso não tenho a menor dúvida, mas ninguém consciente poderá desistir. A nossa geração tem em mãos uma responsabilidade imensa em relação às gerações futuras. Temos que aprender rapidamente a aproveitar o conhecimento científico e tecnológico e a fomentar uma nova ética de cooperação global que conjugue o bem-estar económico e a sustentabilidade ambiental.
Serrone

domingo, 7 de Junho de 2009

De que estamos à espera?


Home – O Mundo é a Nossa Casa produzido pelo fotógrafo francês Yann Arthus – Bertrand, lançado mundialmente no passado dia 5 de Junho, dia Mundial do Ambiente, para além de mostrar imagens verdadeiramente excepcionais e raras, enquanto retrata objectivamente as fragilidades do modelo de desenvolvimento das sociedades modernas, traz uma mensagem de esperança à humanidade, de que ainda é possível salvar o que resta do planeta.
Confesso que desconhecia o referido documentário, quando escrevi a crónica anterior, “Desafio Global”, a primeira de outras que me propus escrever sobre os grandes desafios que a humanidade vai ter que enfrentar nesta e nas próximas gerações. Se tivesse que escolher um documentário para introduzir o tema, certamente não iria hesitar. O filme de Yann Arthus seria a minha opção, por isso o aconselho a todos os que ainda não tiveram a oportunidade de o ver. Façam-no quanto antes (link: http://www.youtube.com/watch?v=tCVqx2b-c7U&feature=channel ) .

Já não existem dúvidas que as mudanças climáticas são antropogénicas (derivadas da actividade humana). Citando John Kennedy: “Os nossos problemas são gerados pelo Homem; podem, portanto, ser resolvidos pelo Homem. Nenhum problema associado ao seu destino está fora do alcance dos seres humanos”. Palavras de grande sensibilidade e geradoras de enorme impacto histórico no passado recente e que, de novo, voltam a revestir-se de uma enorme oportunidade política, agora que o ser humano enfrenta o desafio da sustentabilidade do planeta para a vida. Segundo é dito por Yann Arthus: “É tarde demais para ser pessimista”… “A humanidade tem 10 anos para inverter a trajectória que levará a Terra a um ponto sem retorno, até ao caos. Vamos enfrentar os factos. Temos que acreditar. Temos muito pouco tempo para mudar”... “Mas já existem testemunhos de uma nova aventura humana baseada na moderação, na inteligência e na partilha. Está na hora de nos unirmos. O importante agora não é aquilo que se foi, mas aquilo que resta. Ainda temos metade das florestas do planeta, milhares de rios, lagos e glaciares e milhares de espécies que prosperam. Nós sabemos que existem soluções. De que estamos à espera?”.
Serrone

sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Home - O Mundo é a Nossa Casa


Para assinalar o Dia Mundial do Ambiente, estreia-se hoje a nível mundial o filme documentário Home - O Mundo é a Nossa Casa. Assinado pelo fotógrafo francês Yann Arthus - Bertrand, trata-se de um documentário que nos dá imagens de todos os cantos da Terra vistos do ar, acompanhadas por um texto que nos vai falando da história do mundo em que vivemos, da vida natural, do ser humano e das ameaças ambientais.

Pode ver na Internet em http://www.youtube.com/homeproject, hoje às 20:30 h na RTP 2, nos ecrãs de cinema das salas Zon Lusomundo, em DVD e Blu-ray à venda na Fnac.

Serrone

domingo, 31 de Maio de 2009

O desafio global


Não podemos evitar o período que se aproxima e que muitos analistas denominam de «Ajustamento Económico» e que eu prefiro denominar «Ajustamento Ambiental, Social e Económico».
Este foi um dos temas que desenvolvi numa das crónicas do final de Fevereiro. Desde a sua publicação, tenho recebido ocasionalmente algumas comunicações que, embora reconheçam o interesse e a pertinência das ideias expostas, referem não acreditar que alguma vez estas possam ser postas em prática. Segundo estes leitores, os grupos de interesses que dominam o sistema capitalista, procurarão sempre tirar as maiores vantagens económicas/financeiras, minimizando despesas e maximizando o lucro, deixando para segundo plano as questões ambientais e sociais.
Irá ser sempre assim? Se olharmos para a história da humanidade, quase somos levados a concordar que sim. Mas os erros cometidos no passado, trouxeram o planeta ao ponto em que nos encontramos, o mais grave de sempre. Na minha opinião o homem tem feito uma péssima gestão do planeta, pelo que se torna imprescindível aprender rapidamente com os erros do passado e implementar medidas urgentes para poder salvar o que resta deste, para as gerações futuras. Se não se inverter a lógica de desenvolvimento das últimas décadas, a actual trajectória ecológica, demográfica e económica será insustentável e acentuará:
- As mudanças climáticas, extinções de espécies e destruição de funções vitais de suporte à vida.-O aumento do número de habitantes do planeta, principalmente em zonas incapazes de absorver uma população crescente.
-O aumento da pobreza extrema na população mundial. Recordo que estas populações morrem todos os dias à fome e com doenças, sem receber qualquer benefício do desenvolvimento do resto do mundo.
-A diminuição acentuada da disponibilidade de todos os recursos, com repercussões geopolíticas inimagináveis.

Estes problemas não se resolvem por si mesmo, conforme já deu para perceber com a actual crise. Nenhuma região do mundo ficará de fora, também as mais ricas serão irremediavelmente afectadas. Alcançar metas e resoluções a uma escala global pode parecer impossível, mas é a única saída para evitar o pior. Os desafios são globais e por isso exigem soluções globais. O mundo necessita urgentemente de acordos e atitudes internacionais generalizadas, que sejam capazes de responder aos desafios globais.
Nas próximas crónicas procurarei desenvolver esta temática, abordando com a maior detalhe os problemas ecológicos, demográficos e económicos, suas causas e possíveis soluções. Desta vez pareceu-me interessante tentar explicar como é que estes factores estão inter-relacionados. Vou tentar fazê-lo de uma forma bastante simples: utilizando uma fórmula matemática de fácil compreensão, desenvolvida por P. Ehrlich e J. Holdren em «One – Dimensional Ecology» , Bulletin of the atomic Scientists em Junho de 1972, mas que ainda hoje se mostra adequada e ajustada.
I= P x A x T
Sendo:I - Impacto humano total sobre o ambiente; P – População mundial; A – Rendimento per capita (médio) e T – Impacto ambiental por unidade monetária de rendimento.
A fórmula refere que o Impacto humano sobre o ambiente aumenta quando aumenta a actividade económica total e depende do tipo de tecnologia que está a ser usada.
Em economia, o que define a magnitude da actividade económica mundial é o Produto Mundial Bruto que é igual à multiplicação da População Mundial (P) pelo Rendimento per capita (A), o valor P x A da nossa fórmula. Desde 1950, a população mundial aumentou de 2,5 mil milhões de pessoas para os actuais 6,7 mil milhões, sendo que o rendimento per capita, também tem vindo sempre a aumentar. Estima-se que, desde 1950, o produto económico do mundo tenha aumentado cerca de oito vezes, até aos nossos dias.
Segundo as previsões da ONU, o crescimento demográfico média até 2050 levará a população mundial até aos 9,2 mil milhões. Se fosse possível manter os níveis de crescimento que se verificavam antes da crise actual, o rendimento per capita aumentaria ainda cerca de quatro vezes, até 2050. A conjugação de ambos os factores, elevaria o Produto Mundial Bruto cerca de 6 vezes, até meados do século XXI.
O que estou a tentar demonstrar a todos os nossos leitores é que, a manter-se o cenário de crescimento demográfico e económico dos últimos anos, o impacto humano sobre o ambiente aumentará cerca de 6 vezes até ao ano 2050.
Não será preciso evidenciar os efeitos devastadores que tal acarretaria para o planeta? Basta pensarmos que, já hoje se vive uma situação insustentável sob o ponto de vista ambiental.

Até agora falamos do valor P e A da fórmula. Vamos agora perceber melhor o valor T, propositadamente deixado para o fim:
Ao desenvolvermos a actividade económica, com as tecnologias disponíveis no momento, provocamos uma determinada carga ambiental. Utilizamos e poluímos recursos, emitimos gases com efeito de estufa, etc. Digamos que, por métodos matemáticos mais complexos, é possível quantificar o impacto que provocamos no ambiente, por unidade de rendimento obtida no exercício da actividade económica. Este impacto é representado na fórmula com a letra T. Quanto maior for a actividade económica, maior será o valor de T e maior o impacto desta no ambiente.
Pensemos agora no que será o valor inverso de T o qual iremos identificar com a letra S. O inverso de T será 1/T e dá-nos o rendimento que é produzido no exercício da actividade económica, por unidade de impacto ambiental. Como se trata do inverso de T, percebemos facilmente que quanto mais elevado for o valor de S, menor será o impacto nos sistemas naturais. As tecnologias de elevado valor de S, são as tecnologias sustentáveis ou tecnologias limpas.
A fórmula inicial também é conhecida com a expressão:
I=P x A x S,
Sendo S =1/T (Rendimento que é produzido por unidade de impacto ambiental, valor sempre menor que 1).

O conhecido economista Jeffrey Sachs, afirma que o desafio global que é colocado actualmente à humanidade, é conseguir estabilizar o valor de P (população mundial) de forma a não ultrapassar os 8 mil milhões de pessoas em 2050 e investir na sustentabilidade das tecnologias (S), entre as quais se incluem as energias renováveis, captação e armazenamento de dióxido de carbono, a piscicultura sustentável, a irrigação gota a gota, melhores variedades de sementes. Tudo isto maximizando o desejável aumento do Rendimento per capita (A).
“Seguindo esta estratégia, o mundo poderá suportar um aumento do rendimento global sem sofrer uma catástrofe ambiental”.

Serrone

domingo, 24 de Maio de 2009

Economia Comportamental - Previsivelmente Irracional


A capa da edição portuguesa do livro "Previsivelmente Irracional" tem uma pergunta: "Porque é que pessoas inteligentes tomam decisões irracionais todos os dias? A resposta vai surpreendê-lo”.

À luz da economia comportamental, o professor do MIT Dan Ariely explica, com muitos exemplos à mistura, como tomamos decisões e porque somos não só irracionais, mas previsivelmente irracionais ao fazê-lo.

Porque é que decidimos fazer dieta mas desistimos logo que chega a sobremesa? Porque é que compramos tantas coisas que não precisamos e que nunca iremos usar? Nunca lhe aconteceu ler uma ementa num restaurante, ter uma ideia daquilo que queria comer ou beber e acabar por alterar a sua escolha porque ouviu um pedido na mesa ao lado, ou porque resolve seguir o exemplo de quem partilha a mesa consigo? Porque será que um medicamento caro nos faz sentir melhor do que um barato? O custo faz a diferença na forma como nos sentimos? Porque é que temos tanta dificuldade com as opções? Porque sobrevalorizamos o que temos e subavaliamos o que queremos adquirir? Porque não poupamos parte dos nossos salários, como sabemos que devíamos fazer? Porque não resistimos às novas compras? O que é tão cativante no "grátis"? Quem poderia estar interessado apenas numa opção quando, pelo mesmo preço, poderia ficar com as duas? Porque motivo as pérolas são tão caras? Porque gostamos de fazer coisas quando não somos pagos para o fazer? Porque é que o sexo altera o nosso comportamento? Porque somos desonestos sem o reconhecer? Porque ficamos mais honestos quando lidamos com dinheiro?

A todas estas perguntas, Dan Ariely vai dando respostas, explicando as experiências que foi fazendo ao longo dos anos com os seus alunos. Tudo isto à luz da economia comportamental, que o próprio define no livro como "um campo relativamente novo que aborda aspectos simultaneamente psicológicos e económicos". E é assim que tenta compreender o comportamento humano e a forma como se processam as nossas decisões. Chega à conclusão, por exemplo, que a teoria da economia convencional de que os preços resultam de um equilíbrio entre duas forças - a oferta e a procura - é uma "ideia elegante", mas assenta num pressuposto errado: o de que as duas forças são independentes. Na verdade, diz, o valor que as pessoas estão dispostas a pagar é facilmente manipulável.

Neste artigo, pretende-se salientar alguns dos aspectos mais relevantes do livro, não se devendo no entanto dispensar a sua leitura integral, a qual aconselho vivamente.
“A economia convencional pressupõe que somos racionais, que conhecemos todas as informações pertinentes às decisões que tomamos, que podemos calcular o valor das diferentes opções que analisamos e que estamos cognitivamente desimpedidos para ponderar as ramificações de cada potencial escolha.
O resultado é a presunção de tomarmos decisões lógicas e sensatas. Mesmo que tomemos uma decisão errada de vez em quando, a perspectiva da economia convencional sugere que aprendemos rapidamente com os erros, quer por modo próprio, quer pela ajuda das «forças de mercado» Com base nestas premissas, os economistas deduzem conclusões muito profundas sobre tudo, desde tendências de moda a leis políticas públicas.
Mas, como demonstraram os resultados apresentados no livro, somos muito menos racionais a tomar decisões do que a economia convencional pressupõe. Os nossos comportamentos irracionais não são aleatórios ou erráticos, mas previsíveis e sistemáticos. Todos nós repetimos constantemente o mesmo tipo de erros, devido ao modo como funciona o nosso cérebro. Logo, não seria bom alterar os padrões da economia e afastarmo-nos de uma psicologia ingénua, que falha muitas vezes nos testes do raciocínio, introspecção e, mais importante, de escrutínio empírico?
Não faria mais sentido se a economia se baseasse na forma como as pessoas realmente se comportam, em vez de como se deveriam comportar? Esta simples ideia é a base da economia comportamental, um campo de estudo emergente focalizado no conceito (bastante intuitivo) de que as pessoas sempre se comportam racionalmente e que muitas vezes se enganam nas decisões que tomam.
Não é agradável constatar que tomamos continuamente decisões irracionais nas nossas vidas pessoais, profissionais e sociais. Mas há uma luz de esperança, pois o facto de cometermos erros também implica que podemos sempre melhorar as decisões que tomamos e que, portanto, temos oportunidade para «borlas». Uma das principais diferenças entre a economia convencional e a comportamental tem a ver com este conceito de «borlas». Segundo a primeira, todas as decisões humanas são informadas e racionais, motivadas por um conceito apurado do valor dos bens e serviços e da quantidade de felicidade (utilidade) que têm probabilidade de gerar. Com este conjunto de premissas, todas as pessoas no mercado tentam maximizar o seu lucro e esforçam-se por optimizar as suas experiências. Consequentemente a teoria económica determina que não existam almoços de borla. Se houvesse, alguém já teria extraído o seu valor.
Por outro lado os economistas comportamentais acreditam que as pessoas são susceptíveis às influências irrelevantes que as rodeiam (a que se chama efeitos de contexto) às emoções irrelevantes, à falta de perspicácia e a outras formas de irracionalidade (para mais exemplos consulte cada um dos capítulos do livro)
Quais as boas novas que acompanham este entendimento? É que os erros também proporcionam oportunidades para melhorar. Se todos cometemos erros sistemáticos nas decisões, então porque não desenvolver novos métodos e estratégias que nos ajudem a melhorar as decisões e a aumentar o nosso bem-estar geral?
Segundo a perspectiva da economia comportamental, os almoços à borla significam exactamente isso, a ideia que existem instrumentos, métodos e políticas para nos ajudarem a decidir melhor e, consequentemente, a alcançar o que desejamos.
Da perspectiva da economia comportamental, o potencial dos «almoços à borla» reside nos novos métodos, mecanismos e intervenções que ajudassem as pessoas a alcançar mais do que verdadeiramente desejam e de proporcionar mais benefícios do que custos a todas as pessoas envolvidas.
O livro descreve ao longo dos capítulos uma força (emoções, a realtividade, as normas sociais) que influencia o nosso comportamento. Essas influências exercem muito poder no comportamento, mas a nossa tendência natural é subestimar grandemente ou mesmo ignorar esta força. Elas afectam-nos, não por nos faltarem os conhecimentos e a prática, ou por sermos fracos, pelo contrário, elas afectam continuamente tanto especialistas como principiantes de formas sistemáticas e previsíveis. Os erros consequentemente traduzem-se no modo como vivemos a nossa vida e como trabalhamos. Fazem parte de nós.
As ilusões visuais também servem aqui de exemplo. Tal como não conseguimos evitar sermos enganados por elas, também cedemos às «decisões ilusórias» que a mente nos oferece.
A questão é que os nossos ambientes visuais e de decisão são uma filtragem de cortesia dos nosso olhos, ouvidos, olfacto, tacto e, o grande mestre, o nosso cérebro. Quando falamos de compreender e digerir a informação recebida, não é forçoso que ela traduza fielmente a realidade. Será mais uma representação desta e é essa a informação que que nos baseamos para decidir seja o que for. Em essência, estamos limitados aos instrumentos com que a natureza nos dotou e o modo natural como decidimos é limitado pela qualidade e precisão desses instrumentos.,
Um segunda premissa importante é que, apesar da irracionalidade ser um lugar comum, isso não implica necessariamente que sejamos indefesos. Depois de entendermos como e quando tomamos decisões erróneas, podemos tentar ser mais vigilantes, forçar-nos a pensar nelas de maneira diferente ou utilizar a tecnologia para ultrapassar as nossas falhas. Também aqui os empresários e legisladores podiam rever os seus raciocínios e reconsiderar os seus modelos de acção, de modo a proporcionar almoços de borla.”
Um livro imperdível que exige um estudo e uma reflexão mais profunda, para que no futuro possamos todos melhorar as nossas decisões particulares enquanto consumidores e, também profissionais, enquanto líderes de organizações.

“Capitalism is dead; long live capitalism.”

No dia 19 de Maio, o Financial Times publicou um artigo de Martin Wolf intitulado “This crisis is a moment, but is it a defining one”?

Nesse artigo, Martin Wolf referiu que a actual crise já revelou até ao momento cinco aspectos importantes, a saber:
- Em primeiro lugar que, quando os Estados Unidos têm problemas económicos graves, estes acabam por se repercutir ao resto do mundo;
- Em segundo lugar, que a crise que vivemos é a mais grave crise económica desde os anos 30 do século passado;
-Em terceiro lugar, que a crise é global, com um impacto particularmente grave em países que se especializaram na exportação de produtos manufacturados, ou que se basearam em importações líquidas de capital;
-Em quarto, que não há memória de se terem lançado antes pacotes de estímulos tão agressivos por parte dos países, para enfrentarem a crise;
-Em quinto e por último, que esse esforço financeiro, está a surtir algum sucesso, devolvendo alguma confiança aos mercados e que, por essa via terá já conseguido atenuar a queda assentuada do abrandamento económico, que se vinha a registar.
Outras certezas resultam do pensamento de Martin Wolf:
“Os USA irá liderar a recuperação económica, sendo que este país é actualmente o mais “Keynesiano do mundo.”
“É plausível que a China, ao ter lançado o seu gigante pacote de estímulos, venha a tornar-se na melhor sucedida economia do mundo”.

No entanto, para o cronista, há pelo menos um grupo de três grandes questões que ainda são desconhecidas:
-Em primeiro lugar, até onde poderão ir os excepcionais níveis de endividamento e a queda de valor líquido afectar o aumento sustentado das poupanças das famílias, que até ao início da crise, tinham um elevado poder de compra?
-Em segundo lugar, por quanto tempo poderão manter-se os actuais défices orçamentais dos estados, sem que os mercados de capitais venham a exigir, uma compensação mais elevadas para o risco?
-Terceiro e último, a partir das suas políticas convencionais, como poderão os bancos centrais definir uma estratégia não inflacionista quando a pressão inflacionista começar a verificar-se?

Que implicações terá a crise para o mapa geoestratégico global?
Ao contrário do que acontece na maioria dos países emergentes que acumulam enormes reservas em moeda estrangeira, no ocidente, os estados estão cada vez mais endividados.
“Rácios de dívida pública para o produto interno bruto parecem vir a duplicar em muitos países desenvolvidos”. “O esforço de consolidação das finanças públicas irá dominar a política orçamental nos próximos anos, talvez décadas. O Estado está de volta, mais interventivo do que gastador.” Segundo o cronista do FT, teremos que esperar pelos proximos anos, para ver como é que o mundo irá lidar com estas questões.

Para já, Martin Wolf considera conhecerem-se à partida, três premissas importantes:
-A primeira é que o ocidente, apesar de tudo tem sabido gerir um sofisticado sistema financeiro, isto apesar dos USA quase terem deitado tudo a perder. Não fora o novo presidente Barak Obama, com uma intervenção moderadora e atenuadora e a reputação americana teria saido ainda mais manchada com os escândalos financeiros que desencadearam a crise.
-A segunda é que os países emergentes, principalmente a China, começa a ocupar um papel central no palco da política mundial.
-A terceiro é que estão a ser feitos esforços para a renovação de organizações mundiais, designadamente através do aumento dos recursos do FMI, conforme estabelecido pelo G20.

Como é que estas premissas irão conjugar-se e influenciar o futuro, ainda será um pouco cedo para se tirarem conclusões, designadamente para perceber se irão verificar-se algumas mudanças radicais na política mundial:
"É provável que a USA continue a sua indispensável liderança na retoma e que a relação entre este país e a China, ir-se-á tornar mais central, com a Índia a vir logo em segundo plano. É também previsível que os dois gigantes asiáticos subam de peso na esfera de influência económica e estratégica mundial. Por outro lado, ao contrário do que se estava à espera no início desta crise, a Europa não tem sido feliz a enfrentá-la. A sua economia e sistema financeiro, revelaram-se muito mais vulneráveis do que se previa."
Verificar-se-á por essa razão uma perda do peso da velha Europa no mapa geoestratégico mundial? É provável que sim.

Quais vão ser as principais consequências de fundo?
“Meu palpite é que esta crise acelerou algumas tendências e revelou outras, especialmente a insustentabilidade do crédito e do endividamento. Muitas delas, têm manchado a reputação do sistema económico, deixando ao mundo um legado amargo”, afirmou Martin Wolf.
Martin Wolf, apesar de tudo, afirma ter a certeza que o mercado financeiro irá recuperar da crise nos próximos anos e que o capitalismo irá sobreviver. “Capitalism is dead; long live capitalism.”
Para bem do futuro da humanidade, esperemos que o sistema se reinvente a si próprio para que, o novo capitalismo venha despido dos erros do passado de modo a impedir que a ganância de alguns, não volte a colocar em causa o futuro colectivo.
Serrone

domingo, 17 de Maio de 2009

Será que percebi? Não, nem por isso, mas vou explicar na mesma...


O governo português divulgou esta semana, o cenário macroeconómico para 2009. Depois das previsões enunciadas pelo Banco de Portugal e do FMI, Teixeira dos Santos, sem nos surpreender por isso, mostrou-se mais optimistas que aquelas instituições.

Há razões para o ministro estar mais optimista que o Banco de Portugal e que o FMI? Porquê esta reincidência do governo em atenuar os cenários negativos?

Todos sabemos que na base da estratégia do governo, ao divulgar índices macroeconómicos mais baixos que o Banco de Portugal e o FMI, objectivamente encontram-se razões de natureza política: Aproxima-se um calendário eleitoral exigente, com três eleições sucessivas e o partido do governo tem como objectivo sair vencedor em toda a linha. Divulgar os índices macroeconómicos mais baixos dos últimos trinta e cinco anos, ainda que supostamente justificados pela ocorrência da maior “crise económica e financeira global das nossas vidas”, compreensivelmente não se deve constituir, por si só, uma tarefa agradável para o ministro.
Mas a explicação dada por Teixeira dos Santos, é que os números divulgados pelo governo são diferentes porque beneficiam de informações mais actualizadas, dando como exemplos destas, algumas elações, decorrentes de afirmações proferidas pelos responsáveis do BCE e da FED, de que existem sinais indiciadores da aproximação do ponto de viragem da crise económica mundial.

Haverá sinais de retoma na economia mundial, como afirmam os presidentes do FED e do BCE?

Alguns analistas confirmam que o declínio económico dá sinais de abrandamento e asseguram que grande parte do sistema finaneiro estará a sobreviver à crise. No entanto, consideram prematuro e ainda sem sustentabilidade credível, antecipar previsões sobre o ponto de viragem. Percebe-se que a acção concertada dos presidentes do BCE e do FED, tiveram como objectivo claro e também compreensível, fornecer ao mercado expectativas positivas, para que se criem as condições necessárias à restituição da confiança.
Uma das tarefas que cabe aos bancos centrais é promover a confiança e o aumento da produtividade em tempo de crise. Como? Convencendo os agentes económicos a inverter a espiral descendente: À medida que os consumidores preocupados com o futuro vão decidindo poupar mais dinheiro e gastar menos, as empresas reduzem o investimento, produzem menos e vão despedindo trabalhadores. O desemprego crescente deprime o rendimento, o que faz diminuir ainda mais a procura, continuando assim a espiral descendente. Há por isso a necessidade imperiosa de contrariar esta tendência, de modo a invertê-la.
No caso de Portugal, a espiral não será invertida nem com números dados por Teixeira dos Santos, nem com expectativas vindas do Banco Central Europeu. Portugal é uma economia aberta, com uma dependência externa crescente e com problemas estruturais profundos, sendo que o governo, na actual conjuntura internacional e no contexto da UE, não dispõe nem de recursos, nem de mecanismos suficientes para agir.
Para sermos justos, temos que reconhecer a impotência instrumental do governo actuar com eficácia junto da economia: Para além de dar apoios sociais às vítimas da crise (os desempregados) e manter algum investimento público, procurando manter sustentáveis os principais índices macroeconómicos, pouco mais poderá fazer, sem que, antes se verifique, a recuperação económica do resto do mundo, do qual dependemos.
Um dia, quando finalmente se verificarem as condições vindas do exterior, para o início da recuperação económica do nosso país, será extraordinariamente relevante o estado em que estiverem não só as finanças públicas da nação, mas também a credibilidade externa da economia portuguesa. Por isso a minha preocupação aumenta face ao crescente agravamento do cenário macroeconómico dos últimos meses e à possibilidade deste se acentuar, devido a eventuais pressões eleitoralistas dos próximos tempos.

Cenário Macro para 2009 divulgados pelo governo
-PIB: -3,4% em 2009, contra 0% em 2008. Sendo que -1,4% do consumo, -14,1 do investimento, -11,8% das exportações e -11,1% das importações.
- Défice orçamental: 5,9% do PIB previstos para 2009 contra 2,6% do PIB em 2008;
-Dívida pública: 74,6% do PIB em 2009, contra 66,2% do PIB em 2008;
-Desemprego: cerca de 9% em 2009, contra cerca de 7,6% em 2009;
-Inflação: 0,1% em 2009, contra 2,6% em 2008.
Serrone

domingo, 26 de Abril de 2009

Quanto tempo vai durar a crise económica e financeira global?

"Esta não é uma qualquer crise, esta é maior crise das nossas vidas”. Há quem esteja a fazer prognósticos baseados em modelos comparativos do comportamento das crises passadas. Esses vão falhar redondamente nas suas previsões. A severidade desta crise está no facto dela estar sincronizada em termos mundiais e envolver a conjugação de várias espirais negativas: A acentuada queda do valor de activos sobrevalorizados insustentavelmente no passado, afectando directamente a riqueza das empresas e das famílias. A falta de confiança generalizada afectando directamente o consumo de bens e serviços. A diminuição drástica do investimento resultante da diminuição da procura interna e externa. O inevitável aumento do desemprego e de problemas sociais. A existência de produtos tóxicos disseminados no sistema financeiro mundial. Se a tudo isto somarmos a acentuada contracção do crédito e os défices elevados das principais economias ocidentais, percebemos que não há nenhum factor positivo, capaz de puxar pela economia.
Tecnicamente a crise global só terminará quando as principais economias deixarem de estar em recessão e começarem a crescer de novo. Começando a responder à pergunta, garanto-vos que ninguém no planeta está em condições de poder adiantar prognósticos credíveis sobre o fim da crise, embora esta, supostamente, não vá durar para sempre.
Dominique Strauss- Khan, director geral do FMI, afirmou que “A recessão da economia mundial vai ser profunda e longa e a recuperação será lenta e fraca”. Olivier Blanchard, com as funções de economista-chefe do FMI, divulgou esta semana, projecções de perdas de crescimento da economia mundial para 2009, muito superiores às que haviam sido estimadas no final do ano passado. Recordo que para os Estados Unidos estava previsto uma queda no crescimento de 0,7%, actualizada agora para 3,8% e para a zona euro, previa-se uma contracção média de apenas 0,4%, hoje prevê-se que esta seja de 4,2%.
Barry Eichengreen, professor na Universidade da Califórnia, que está fazer um estudo comparativo desta crise com a Grande Depressão de 1929, afirma que a recessão actual é mais profunda, se for comparado no mesmo período de tempo. O que ele nos quer transmitir é que as quebras actuais no comércio internacional, na produção industrial mundial e nas mercados bolsistas mundiais, são muito mais acentuadas do que se verificou, no mesmo período de tempo decorrido, a quando da Grande Recessão.
Será que os sinais positivos vindos da América, poderão constituir-se com um sinal de esperança para eles e para os países da União Europeia?
(Parece reunir consensos entre os especialistas, o princípio que só irá haver retoma na União Europeia, alguns meses depois desta se ter verificado nos Estados Unidos).
Nos últimos dias, verificaram-se sinais de subida nos mercados de capitais, interpretados por alguns analistas, como sendo prenúncios de antecipação de um novo ciclo económico. Isto aliado ao facto dos bancos americanos, terem apresentado melhores resultados nos três primeiros meses deste ano e de se ter verificado um ligeiro aumento na compra de automóveis e na aquisição de casas, levou o Presidente da Reserva Federal norte-americana, Ben Bernanke, a afirmar: “ Recentemente temos visto alguns sinais de que o declínio agudo na actividade económica pode estar a abrandar”. Até Barak Obama, que é sempre muito cauteloso, afirmou “ existirem raios de esperança na economia”
Mas mais uma vez, infelizmente, a resposta que vou dar à pergunta inicial é negativa. Não são ainda sinais de esperança. Quanto muito, esta ligeira mudança dá-nos indicações que a crise não será para sempre. Nos Estados Unidos, embora a taxa de declínio económico, tenha abrandado nas últimas semanas, a meu ver, ainda não se pode afirmar que se trata de um início de recuperação. Existem problemas estruturais de enorme gravidade por resolver naquele país. Os bancos americanos estão inundados de activos tóxicos e, como já vos tenho dito, a crise nunca será vencida enquanto não for ultrapassada a insuficiente capitalização dos bancos, para que o crédito volte a fluir. Os números conhecidos do colapso financeiro desta crise, são piores do que os verificados na década de 30 do século XX. No relatório de Estabilidade Financeira Global do FMI, estima-se que o total de perdas no sector financeiro deverá ascender a 4,1 biliões de dólares (3,2 biliões de euros). Alguns analistas já comentaram este número dizendo que a próxima previsão poderá ser muito superior a esta.
As medidas que os diversos governos têm lançado, designadamente os estímulos macroeconómicos e a injecção de capitais públicos em bancos, estão muito longe de poder fazer face à precariedade do sistema financeiro. Poderá ser necessário muito tempo, até que o sistema financeiro global esteja devidamente saneado. O pior é que os elevados défices orçamentais, a dívida crescente dos Estados Unidos e dos países da zona euro e Inglaterra, não dão grande margem de manobra aos seus governos, para estes continuarem a intervir.
Segundo Martin Wolf, colunista do Financial Times, “a economia não pode regressar ao ponto de partida em que se encontrava antes da crise, por que ficou cabalmente provada a sua insustentabilidade”. Segundo este brilhante analista, “neste momento inicia-se um longo e penoso processo de reestruturação e desalavancagem”.
Vivemos por isso tempos de incerteza, sendo que a maior incerteza de todas é precisamente a data do fim da crise.
Serrone

domingo, 12 de Abril de 2009

Escreveram esta semana


Joseph E. Stigliz, prémio Nobel da Economia, actual presidente da comissão de peritos da Organização das Nações Unidas (ONU), mencionou estar de acordo com muitas das iniciativas do G20, mas que uma crise global exigia medidas mais globais: “Infelizmente, cada país vai delinear pacotes de estímulo, com impacto essencialmente nacional e não global, medidos em função do orçamento de cada um e dos benefícios que o crescimento e o emprego possam vir a ter na sua economia. Ou seja, serão menos abrangentes e eficazes que o necessário.” Segundo Stigliz, impunha-se avançar com um pacote de estímulo coordenado globalmente.
Martin Wolf, escreveu esta semana no Financial Times que a última cimeira do G20 não irá contribuir para a retoma da economia sustentável. Na sua óptica foram apenas alcançados dois objectivos: um deles prende-se com o diálogo conseguido entre as potências que é positivo para minimizar a ocorrência de guerras e o segundo, com a disponibilidade de recursos ao Fundo Monetário Internacional que, se forem efectivamente disponibilizados, talvez possam vir a ajudar a sobreviver as economias emergentes mais afectadas pela crise.
Wolfgang Munchau, Editor Associado do Financial Times, no dia 5 de Abril afirmou que a cimeira de Londres não conseguiu aquilo que se propunha e que nenhuma das suas resoluções aproximará o mundo um passo que seja da solução económica global. “Os líderes mundiais mostraram-se mais interessados em evitar crises futuras do que resolver a crise actual.”
Esta semana, estes três brilhantes economistas vieram confirmar as opiniões que formulei na crónica anterior, logo após o término da cimeira do G20. Não sendo eu economista, não posso deixar de me congratular por esse facto.
Sem pretensiosismo e com a humildade que é preciso ter para opinar sobre questões tão complexas, deixo-vos um resumo de algumas das minhas ideias que desenvolvi nas últimas crónicas, de forma retrospectiva à data de 14 de Fevereiro, as quais considero relevantes para reflexão:
4 de Abril de 2009 – “Alguns Passos...”
Face à gravidade dos problemas financeiros, económicos, sociais e ambientais, com que o mundo se depara, algumas das medidas enunciadas (pelo G20), poderão em alguns casos revelar-se insuficientes, outras demorar demasiado tempo a ser implementadas e outras ainda só irão revelar-se positivas, na prevenção de crises futuras.
Devido à globalização das finanças, todas as acções junto do sistema bancário, devem ser coordenadas em conjunto por todos os países e, não isoladas como têm sido feitas até agora. Não tendo sido desenhado um plano conjunto, iremos continuar a assistir ao desperdício de recursos e à falta de eficácia dos planos.
O G20 decidiu criar um fundo de crédito às exportações, para tentar travar a queda do comércio mundial, o qual será colocado à disponibilidade das empresas exportadoras dos países emergentes. Trata-se de uma excelente medida, que irá beneficiar particularmente aqueles países, mas de efeito reduzido no crescimento à escala global.
Nesta cimeira, foram dados passos importantes na direcção certa, mas muitos mais irão ser ainda necessários, sendo que as maiores economias do mundo, vão precisar ainda de muito tempo, para concretizar o inevitável ajustamento económico e financeiro que lhes permitirá retomar de novo, o crescimento, desta vez sustentado.
29 de Março de 2009 – “A China não cresce sem a globalização”
A China desenvolveu a sua economia ajustando-se ao modelo da globalização, por isso duvido que este país volte a crescer significativamente, sem antes se verificar também a retoma da procura dos seus excedentes por parte dos mercados internacionais. Seguindo o exemplo de diversos países, a China lançou pacotes de estímulos internos para enfrentar a crise e tal como se tem passado nos outros estados, as medidas daí resultantes têm sido praticamente orientadas para a produção e consumo interno de bens, produtos e serviços, portanto com fraca projecção no mercado externo. Como se sabe, estes estímulos têm como objectivo principal a manutenção do emprego de modo a evitar o crescimento de problemas sociais. São medidas tomadas para atenuar os efeitos e as causas resultante da "passagem" da crise e não, como alguns possam pensar, medidas encontradas para a solução dos problemas e a viabilização da recuperação económica internacional. Essa recuperação económica está longe de acontecer e a China, provavelmente, sendo um dos países com maior capacidade para conseguir sair da crise, irá sentir-se condicionada nos próximos anos, mais por factores de natureza externa do que interna.
25 de Março – “Sinais da América”
Obama sabe perfeitamente que a actual situação de crise profunda que o mundo assiste foi causada pela teoria dos Mercados Eficientes e a doutrina fundamental do laissez –faire que a acompanha, adoptada pela América e copiada pelo mundo após a Segunda Guerra Mundial. Não será pois de estranhar que Obama comece a dar ao estado um papel de maior intervenção, muito ao estilo das teorias propostas por Keynes.
28 de Fevereiro de 2009 – “Andava por ai muito dinheiro falado, mas pouco dinheiro contado”.
As medidas que os governos dos diversos estados estão a desenvolver para enfrentar a crise, não são mais do que tentativas desesperadas para prolongar o modelo económico, mais uma vez à custa do aumento brutal dos défices, ou seja da dívida.
Não é possível manter indefinidamente o crescimento contínuo. O modelo económico estrutural e conjuntural em que vivemos nas últimas décadas, está a esgotar-se.
Os líderes mundiais têm que perceber que as suas políticas não mais poderão desprezar os problemas ambientais e os problemas sociais. Nas próximas décadas, estes são os problemas que têm que ser tomados como prioritários pelos governos e pelas instituições mais poderosas. A economia ter-se-á de adaptar a estas novas realidades, reinventando-se a si própria, criando modelos ajustados às necessidades ambientais e sociais e não só, como até aqui, exclusivamente à criação de riqueza desigual e assimétrica.
14 de Fevereiro de 2009 – “Crise de Valores e de Ética / Crise de Confiança
Os esforços que os governos de muitos países estão a desenvolver isoladamente, ao injectarem capital em montantes avultados nas economias, sem previamente terem preparado e implementado uma estratégia comum à escala global, cujo objectivo seria restituir a credibilidade e a confiança aos mercados, infelizmente para todos nós, irão ficar longe de obterem o sucesso pretendido.

Serrone

sábado, 4 de Abril de 2009

Alguns passos...

A cimeira do G20 em Londres foi um acontecimento marcante sob o ponto de vista político, mas cujo plano enunciado pode vir a revelar-se aquém das exigências com que se defrontam actualmente as economias e as finanças.

Os líderes das maiores potências apresentaram-se ao mundo com ideias convergentes em relação à natureza e à gravidade da crise e com a consciência que a sua resolução futura nunca poderá ter sucesso sem a colaboração e o envolvimento de todos. Embora reconheça que da cimeira resultaram acordos positivos, penso que poderá ser ainda muito cedo para tirar conclusões quanto à sua eficácia e para se começar já a projectar datas de fim da crise e a retoma do crescimento económico.
Face à gravidade dos problemas financeiros, económicos, sociais e ambientais, com que o mundo se depara, algumas das medidas enunciadas, poderão em alguns casos revelar-se insuficientes, outras demorar demasiado tempo a ser implementadas e outras ainda só irão revelar-se positivas, na prevenção de crises futuras.
Concretizando, começo pelo cerne e origem da crise: a situação do sector financeiro mundial. Não saiu da cimeira um plano à escala global capaz de gerar no curto prazo a restauração da transparência e confiança no sector financeiro. As intenções manifestadas em combater os paraísos fiscais e reforçar os mecanismos de regulação dos “hedge funds”, são medidas importantes, tendo em vista a credibilização futura do sector, mas insuficientes para que se possa falar numa nova arquitectura financeira mundial, como já li escrito em algumas jornais internacionais. Para além do mais, a sua implementação irá demorar algum tempo e só terá resultados no médio prazo, pois será ainda necessário, conceber, planear e executar um plano. Não foi planeada uma acção concertada, como se exigia, para combater os activos tóxicos que afectam o sistema bancário mundial. Não saiu da cimeira uma solução capaz de tirar da paralisia o sistema de crédito global, para que o crédito volte a fluir e a apoiar as empresas que dele precisam para continuarem a criar riqueza e emprego. Devido à globalização das finanças, todas as acções junto do sistema bancário, devem ser coordenadas em conjunto por todos os países e, não isoladas como têm sido feitas até agora. Não tendo sido desenhado um plano conjunto, iremos continuar a assistir ao desperdício de recursos e à falta de eficácia dos planos.
Um bilião de dólares prometido para combater a crise, aparentemente, é muito dinheiro, mas na realidade é menos de 1% do PIB mundial. Muitos analistas económicos já afirmaram que se trata de uma verba insuficiente para contrariar a queda da economia mundial, prevista para este ano, de 2,7 pontos percentuias.
O G20 decidiu criar um fundo de crédito às exportações, para tentar travar a queda do comércio mundial, o qual será colocado à disponibilidade das empresas exportadoras dos países emergentes. Trata-se de uma excelente medida, que irá beneficiar particularmente aqueles países, mas de efeito reduzido no crescimento à escala global. A questão fulcral é que a retoma económica mundial, precisa de ser alavancada pela procura externa dos grandes mercados consumidores. Os Estados Unidos, com problemas estruturais internos profundos e com o desemprego a aumentar descontroladamente, não está em condições de ser o motor de arranque, aliás, como foi afirmado na cimeira pelo seu próprio presidente. A China, pelas razões que enunciei na minha crónica anterior, também não está nessa posição. A União Europeia, conjuntamente com os países emergentes, vivem dificuldades idênticas. A quebra abrupta da produção motivada pela diminuição acentuada da procura e o agravamento dos problemas sociais, canalizam grande parte do esforço financeiro dos respectivos países. A verdade é que não há nenhum país ou região, actualmente em condições de ter o papel de "motor de arranque" da economia mundial.
Nesta cimeira, foram dados passos importantes na direcção certa, mas muitos mais irão ser ainda necessários, sendo que as maiores economias do mundo, vão precisar ainda de muito tempo, para concretizar o inevitável ajustamento económico e financeiro que lhes permitirá retomar de novo, o crescimento, desta vez sustentado. Começo a acreditar.
Serrone

domingo, 29 de Março de 2009

A China não Cresce sem a Globalização


Com 1,3 mil milhões de habitantes, a China é o maior país do mundo, é a economia que cresce mais depressa, é o maior produtor mundial industrial, é o segundo país em termos de consumo e o que têm a maior poupança.
Durante os últimos trinta anos, o PIB cresceu a taxas superiores a 9% ao ano, tirando da pobreza 400 milhões de pessoas. O rendimento médio por habitante aumentou quase sete vezes. Durante as três décadas a dimensão da economia duplicou em cada oito anos. Ante do início da actual crise internacional, a China exportava num só dia mais do que exportou no ano 1978, ano em que Deng Xiaoping iniciou o caminho da modernização. Na segunda metade desse mesmo período, só para os Estados Unidos, as exportações aumentaram 1600 por cento. A China tem o maior volume de depósitos bancários do mundo. As suas reservas de dívidas ascendem a 1,5 biliões de dólares, o que é três vezes mais do que os depósitos existentes em toda a União Europeia. A China entrou na globalização dos mercados, tornando-se um dos países mais abertos ao mundo. As exportações até meados de 2008, representavam um terço do seu PIB. Este país possui bastante mão-de-obra, mas por outro lado têm carência de matéria-prima e bens alimentares, pelo que não têm alternativa e recorre à sua importação, garantindo no entanto que a balança de transações lhe seja sempre favorável.
Nos últimos anos a China, juntamente com os Estados Unidos, formaram o par de países que mais contribui para o crescimento da economia internacional, razão pela qual, em tempo de crise profunda, torna-se imprescindível estarmos atentos ao que por lá se vai passando. As previsões económicas para 2009, estimam que o crescimento do gigante asiático se vá situar em 6,57 % segundo a FMI e em 8% do PIB segundo o governo. Este último valor, bem longe dos valores de crescimento do PIB dos últimos anos (na casa dos dois dígitos), é considerado pelo primeiro-ministro Wen Jiabao, o valor mínimo para garantir a paz social. Os dados recentemente conhecidos, indicam ainda que no mês de Janeiro de 2009, as exportações totais caíram 17,5%. Na realidade cem mil fábricas fecharam as portas e 20 milhões de desempregados, não tiveram outra alternativa do que deixar as cidades e regressar às zonas rurais de origem. O ritmo da produção industrial no final de Dezembro de 2008, era inferior três vezes ao ritmo de produção que se verificava no princípio desse ano. No caso da China, foi a quebra da procura externa que foi a causadora principal desse mega abrandamento. Dispondo de elevada liquidez, Wen Jiabao tenta agora contrariar a tendência recessiva lançando um pacote de estímulo económico de 586 mil milhões de dólares para os próximos dois anos. Destina-se essencialmente a ser gasto em infraestruturas e a criar formas de incentivo ao consumo, procurando-se com isso que o mercado interno possa substituir parte da quebra da procura do mercado externo, enquanto a crise internacional durar.
A China desenvolveu a sua economia ajustando-se ao modelo da globalização, por isso duvido que este país volte a crescer significativamente, sem antes se verificar também a retoma da procura dos seus excedentes por parte dos mercados internacionais. Seguindo o exemplo de diveros países, a China lançou pacotes de estímulos internos para enfrentar a crise e tal como se tem passado nos outros estados, as medidas daí resultantes têm sido praticamente orientadas para a produção e consumo interno de bens, produtos e serviços, portanto com fraca projecção no mercado externo. Como se sabe, estes estímulos têm como objectivo principal a manutenção do emprego de modo a evitar o crescimento de problemas sociais. São medidas tomadas para atenuar os efeitos e as causas resultante da "passagem" da crise e não, como alguns possam pensar, medidas encontradas para a solução dos problemas e a viabilização da recuperação económica internacional. Essa recuperação económica está longe de acontecer e a China, provavelmente, sendo um dos países com maior capacidade para conseguir sair da crise, irá sentir-se condicionada nos próximos anos, mais por factores de natureza externa do que interna.

Serrone

quarta-feira, 25 de Março de 2009

SINAIS DA AMÉRICA

Muito provavelmente o dia 26 de Fevereiro de 2009 ficará marcado para a história dos Estados Unidos e do resto do mundo, como o dia em que as mudanças de que vos falei na última crónica, tiveram simbolicamente o seu início.

Impõem-se a seguinte pergunta: - O que aconteceu nesse dia que possa ser assim tão importante?
O presidente Obama discursou perante as duas câmaras do Congresso colocando a questão da maior igualdade social na agenda política. O que ele disse aos americanos é que “uma melhor redistribuição da riqueza é essencial para concertar uma economia doente”. Anunciou o recurso a politicas públicas para tornar acessível os cuidados de saúde e facilitar as condições de acesso à educação, a todos os americanos. Falou em aumentar os impostos sobre os mais ricos e propôs a utilização dos dinheiros dos contribuintes para fomentar o novo “paradigma da economia verde”. Afirmou ainda que era tempo da sociedade começar a olhar para o Estado de outra maneira, rejeitando a ideia que os problemas se resolveriam por si mesmos e que era preciso ter um governo com acções fortes e de grandes ideias. A determinada altura fez a seguinte pergunta ao Congresso: -“Os americanos estão preparados para esta viragem?”. Esta ideia forte de mudança que marcou o discurso de Obama, traduz-se numa maior sensibilidade para os valores sociais, ambientais e culturais e para a necessidade de aumentar o papel do Estado na construção dos alicerces de uma nova prosperidade comum.
O debate político está lançado nas elites americanas e o mundo assiste ansioso, à espera de novos valores para a globalização. Se Obama vencer a grandiosa batalha interna que tem pela frente, o mundo acabará por seguir o seu exemplo e a humanidade poderá voltar a sentir esperança num futuro mais próspero e menos assimétrico para todos.

Ideologias, teorias ou simplesmente ideias?
Apesar da insistência dos jornalistas, Obama não aceita responder directamente a perguntas feitas com o intuito de identificar qual é a sua filosofia política. Entendemos que não responda porque não quer com isso criar qualquer tipo de clivagens na sociedade americana. Ele sempre afirmou que pretende envolver toda a nação no processo de mudança e que quer fazer renascer no povo o espírito do sonho americano.
Mas nós podemos e devemos ir tentando encontrar algumas dessas respostas. Não é importante saber se as suas politicas são menos à direita e mais à esquerda ou se as suas ideias são mais identificadas com o socialismo ou com a social-democracia. O que é verdadeiramente relevante é perceber qual é o fio condutor dessas políticas e o impacto que elas poderão ter no futuro da América e do mundo.
Obama sabe perfeitamente que a actual situação de crise profunda que o mundo assiste foi causada pela teoria dos Mercados Eficientes e a doutrina fundamental do laissez –faire que a acompanha, adoptada pela América e copiada pelo mundo após a Segunda Guerra Mundial. Não será pois de estranhar que Obama comece a dar ao estado um papel de maior intervenção, muito ao estilo das teorias propostas por Keynes. Em que medida é que o vai fazer, ainda ninguém sabe ao certo. Por isso é ainda muito cedo para se tirarem mais conclusões. Temos que esperar pelas cenas dos próximos capítulos, sendo no entanto certo que a mudança já teve o seu início, marcada simbolicamente no dia 26 de Fevereiro de 2009.

Serrone, 25 de Março de 2009

sábado, 28 de Fevereiro de 2009

“Andava por ai muito dinheiro falado, mas pouco dinheiro contado”.

Estamos a viver uma crise económico-financeira profunda ou o inicio de um processo de ajustamento económico-financeiro drástico, ao qual se irão combinar outras mudanças comportamentais decisivas, tendo em vista a sustentabilidade ambiental, social e económica do planeta, nesta e nas próximas gerações?
É incontestável que, após a segunda guerra mundial e até aos dias de hoje, apesar da ocorrência de crises económicas cíclicas, o mundo assistiu a um período de progresso económico e de criação de riqueza, impar na sua história. Os Estados Unidos da América lideraram o processo de crescimento mundial, através da imposição da sua moeda e do modelo de globalização, assente na economia de mercado. Porém, a partir de uma determinada altura esse crescimento passou a ser feito à custa do aumento crescente do défice externo americano, financiado pelas economias asiáticas. A reboque da maior potência mundial, as restantes economias, passaram também elas a ser sustentadas pela circulação de divida para aquisição de bens e de serviços, em vez de ser baseada na circulação de dinheiro como sempre fora até ai. Pode-se dizer que muitos estados, empresas e famílias foram assumindo riscos excessivos para as suas capacidades, usando e abusando do recurso ao endividamento. Por outro lado, os fundos disponibilizados pela actividade económica das empresas ou pela poupança de particulares, foram canalizados para fins não reprodutivos, tais como para activos financeiros de fácil e crescente sobrevalorização, criando uma bolha de riqueza artificial, sucessivamente acumulada ao longo dos anos.
Esta semana ouvi um velhote pronunciar, com acentuado sotaque regional, uma frase que sintetiza com sabedoria popular, o que acabei de escrever no parágrafo anterior: - “Andava por aí muito dinheiro falado, mas pouco dinheiro contado”. A actual crise em que o mundo se encontra era inevitável, pelo simples facto que era insustentável manter indefinidamente a ilusão do dinheiro de acesso fácil e devido a isso, aconteceu o que todos sabemos, o colapso da circulação da dívida.
Meus caros leitores, não será possível voltar a existir esperança e confiança no futuro, enquanto as dividas não forem liquidadas e, essa é uma tarefa árdua e muito prolongada que todos temos pela frente. Para se pagar as dividas, primeiro tem que se criar poupança. Esta por sua vez, implicará menos investimento, logo mais abrandamento económico e, desta sequência resultam as duas primeiras conclusões que vos quero transmitir: - Não é possível manter indefinidamente o crescimento contínuo. O modelo económico estrutural e conjuntural em que vivemos nas últimas décadas, está a esgotar-se.
As medidas que os governos dos diversos estados estão a desenvolver para enfrentar a crise, não são mais do que tentativas desesperadas para prolongar o modelo económico, mais uma vez à custa do aumento brutal dos défices, ou seja das dívida. Não vos quero transmitir uma visão apocalíptica, contudo não posso deixar de vos deixar a reflexão que a humanidade está estar perante um dos maiores desafios da sua história, porque estas medidas só irão continuar a dar a ilusão errada que é possível retomar o crescimento, o que só irá motivar o aumento da dimensão do boom final que, um dia, inevitavelmente, acabará por acontecer.
Não podemos evitar o período que se aproxima e que muitos analistas denominam de “Ajustamento Económico” e que eu prefiro denominar “Ajustamento Ambiental, Social e Económico”.
Os recursos do planeta não são ilimitados e o homem não tem feito a sua gestão sensata e equitativa, descurando simultaneamente a sua sustentabilidade. A queima de combustíveis fosseis necessária ao crescimento económico assente no modelo estrutural vigorante, têm afectado gravemente a camada de ozono que protege a atmosfera terrestre e isso vai implicar a curto prazo, efeitos irremediáveis ao planeta e provavelmente à forma como nele se vive. Os cientistas asseguram que o Oceano Árctico irá ficar sem gelo por volta dos anos 20 do século XXI e que o processo de degelo já é irreversível. A água potável é cada vez mais escassa e o ar mais poluído, em regiões do mundo onde há poucos anos seria impensável. Não obstante toda esta degradação do ecossistema, constata-se que mais de 40% da população mundial vive com menos de 2 US$ por dia. As crianças são as principais vítimas desta desigualdade lamentável e vergonhosa, morrendo diariamente com fome e doenças, aos milhares. Se fizermos uma avaliação da gestão que o homem tem feito do planeta, o saldo não poderia ser mais negativo. “Se o homem não controlar as suas acções neste planeta finito, será a natureza a controlar o homem”. Tem que se acabar com o saque injusto e insustentável dos recursos. Tem que se encontrar, desenvolver e aplicar novas soluções energéticas alternativas. Os líderes mundiais têm que perceber que as suas políticas não mais poderão desprezar os problemas ambientais e os problemas sociais. Nas próximas décadas, estes são os problemas que têm que ser tomados como prioritários pelos governos e pelas instituições mais poderosas. A economia ter-se-á de adaptar a estas novas realidades, reinventando-se a si própria, criando modelos ajustados às necessidades ambientais e sociais e não só, como até aqui. exclusivamente à criação de riqueza desigual e assimétrica. A falta de ética, a ganância, o egoísmo não poderá existir num mundo renovado e ter-se-á que desenvolver uma consciência colectiva sustentada, focada no bem comum e na sobrevivência e bem-estar global dos seres vivos.
Isto implicará obviamente, uma mudança radical de pensamentos, de consciências e de atitudes de toda a humanidade, principalmente de todos aqueles que, como nós, têm vivido no mundo ocidental e que, por isso mesmo, têm sido privilegiados relativamente a outros povos. Os primeiros, serão também os que certamente irão ter mais dificuldades em adaptar-se aos novos tempos que se avizinham. Mas será preferível e imprescindível fazer essa mudança, quando mais depressa melhor, porque a alternativa que nos é oferecida, poderá ser bem mais catastrófica para todos nós.
Serrone

sábado, 14 de Fevereiro de 2009

Crise de Valores e de Ética / Crise de Confiança


Não tenho dúvidas em afirmar que a crise de confiança teve origem e continua a sustentar-se na crise de valores e na crise de ética que se instalaram nas sociedades modernas. Estas últimas por sua vez, estiveram na génese da actual crise financeira e económica mundial e muito tem contribuído para o seu agravamento.

O estudo anual dos níveis de confiança nas marcas e na credibilidade das profissões, feito pelas Selecções do Reader´s Digest, entre Setembro e Novembro de 2008, junto de 900 portugueses, veio confirmar a percepção que todos nós já tínhamos. Uma das conclusões do estudo revela que a classe política é aquela em que os portugueses menos confiam (apenas 1% dos inquiridos revelou confiar nos políticos). Comparativamente com as conclusões de igual estudo feito há cinco anos, verificou-se uma queda de 75% de credibilidade dos políticos. A banca e os gestores das empresas também viram substancialmente diminuida a confiança que os portugueses depositavam neles. As conclusões do estudo feito pela Reader´s Digest noutros 16 países da Europa, não foram muito diferentes do estudo feito em Portugal. Todos sabemos que o mundo está a viver uma das maiores crises de confiança de que há memória. No caso do nosso país em concreto, os cidadãos estão a perder cada vez mais a confiança nas instituições democráticas, pedras basilares da existência e funcionamento normal do estado de direito.
A que se deve a crise de confiança de que vos falo? Terá a crise de confiança generalizada contribuído para o aprofundamento da crise económica/financeira a que assistimos?
Não tenho dúvidas em afirmar que a crise de confiança teve origem e continua a sustenta-se na crise de valores e na crise de ética que se instalaram nas sociedades modernas. Estas últimas por sua vez, estiveram na génese da actual crise financeira e económica mundial e muito tem contribuído para o seu agravamento.
Os esforços que os governos de muitos países estão a desenvolver isoladamente, ao injectarem capital em montantes avultados nas economias, sem previamente terem preparado e implementado uma estratégia comum à escala global, cujo objectivo seria restituir a credibilidade e a confiança aos mercados, infelizmente para todos nós, irão ficar longe de obterem o sucesso pretendido.
Já todos perceberam o que esteve mal no passado, o que continua a estar e a necessitar de correcção. Nem mesmo os neo-liberais devem acreditar que os mercados um dia possam voltar a ser deixados à sua sorte. Precisamos de mercados globais a funcionar em bases formais mais fortes, mais consensuais, regulados por uma única e nova entidade reguladora, suportada em redes de segurança espalhadas pelo mundo. As entidades reguladoras existentes falharam e continuam a falhar e nessas ninguém jamais irá acreditar, pelo que, o melhor será eliminá-las quanto antes.
Não será possível devolver a confiança aos cidadãos de todo o mundo e particularizando, aos nossos concidadãos, se estes continuarem a assistir aos erros cometidos no passado recente. O supervidor da banca portuguesa, o Banco de Portugal não poderá confiar demais e ficar satisfeito com meias respostas como foi afirmado esta semana por um ex-director de operações do BPN. Depos do que temos assistido no caso BPN e BPP, quem poderá estar descansado sabendo que os responsáveis do supervisor continuam a ser os mesmos?
Os portugueses têm que ser mais exigentes consigo próprios, com todos os decisores e com as instituições e não aceitarem a desculpabilização, porque só assim, talvez um dia possamos ganhar a confiança que nos permitirá viver um futuro melhor para nós e para os nossos filhos.

Serrone

sábado, 17 de Janeiro de 2009

A Nação e a Crise


O que o Governo prevê hoje, amanhã será diferente…

Há pouco mais de uma semana, quando Vítor Constâncio anunciava o que todos já sabiam, que Portugal estava em recessão económica, o ministro das Finanças Teixeira dos Santos mostrava-se convicto que o défice das contas públicas não iria ultrapassar os 3% em 2009. Uma semana depois, o mesmo ministro evoluía o seu discurso para dizer que seria impossível garantir que o défice ficaria nos 3%.
O Orçamento de Estado para o ano de 2009, aprovado pela Assembleia da República, através da Lei n.º 64-A/2008 de 31 de Dezembro de 2008, previa um défice de 2,2 % (igual ao verificado em 2008). Para além disso, fazia uma revisão em baixa do crescimento bruto para - 0,6% do PIB, previa um abrandamento das exportações em -1,2% e estabelecia valores do desemprego de 7,6%.
Ontem o governo, em Conselho de Ministros extraordinário, aprovou o PEC, revendo em baixa todas as previsões para este ano, alinhando a contracção do PIB com o Banco de Portugal para 0,8%, colocando o défice em 3,9%, o abrandamento das exportações em 3,6% e fazendo a revisão em baixa do desemprego para 8,5%.
Analisando as diferenças de valores dos mesmos indicadores e os prazos em que estes se operaram, quase somos levados a pensar que as previsões feitas hoje, têm que ser reajustadas amanhã, ou seja que não valem muito. Será que tem que ser mesmo assim? Ou seja, existirão assim tantas mudanças na conjuntura internacional que obrigue o Governo a mudar constantemente os indicadores económicos?
É claro que a resposta é não. Não há justificação técnica, no que se refere aos efeitos da crise internacional na economia portuguesa, que justifiquem estas constantes alterações, pelo menos em tão curto espaço de tempo. As motivações são de natureza política e as razões são em grande parte devido a problemas estruturais internos. Por muito que o Governo nos queira desviar a atenção para outros lados, nós sabemos que o executivo é o principal responsável pelas alterações com a cumplicidade do Banco de Portugal e que a crise económica internacional não é a única culpada para a situação em que o país se encontra.
Vou abrir um primeiro parênteses, para vos esclarecer que não estou aqui a fazer campanha contra este ou outro qualquer governo anterior e a tomar partido ou a colocar-me ao lado da oposição, seja ela qual for. Longe de mim que, por Graça de Deus e por vontade própria, me mantenho afastado de influências partidárias. Limito-me a analisar factos e a emitir a minha opinião na qualidade de cidadão português, que tenta acima de tudo estar bem informado para não ser enganado.
As alterações de que vos estava a falar, na minha modesta opinião, não vão ficar por aqui. Vamos assistir em 2009 a uma vergonhosa sucessão de revisões em baixa das previsões económicas para este ano, tendo por bode expiatório a crise financeira e económica internacional.
O PEC aprovado ontem, assenta ele próprio em bases irrealistas e o governo sabe muito bem disso. O próprio Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, afirmou que a previsão de quebra de 0,8% do PIB, tinha apenas uma probabilidade de 60% de se verificar.
Mas a quebra de 0,8% do PIB é ela própria uma miragem, ou então não estaríamos a enfrentar a maior crise das nossas vidas. Repare-se no seguinte: Nos últimos trinta anos as diversas crises que ocorreram apresentaram as seguintes quedas do PIB -0,8% (2003), -1,9%, -2,0% e -4,3%. Vítor Constâncio igualou a quebra do PIB para 2009, ao valor mais baixo que se verificou nos últimos trinta anos em tempo de crise e o Governo alinhou.
Penso que sobre este assunto, por agora, mais não será preciso referir. Prometo continuar atento ao longo do ano para vos ir chamando a atenção para a esperada concretização das revisões em baixa dos indicadores económicos fornecidos agora pelo Governo.


As reformas do Estado não foram suficientes ….

Não poderia deixar passar esta semana, sem vos falar sobre as previsões para Portugal, feitas pela agência de Rating Standard & Poor´s (S&P). No relatório que a S&P (uma das três maiores agência de notação de crédito privada do mundo) publicou esta semana, colocou o ´ rating ´ de Portugal (1) sob vigilância negativa, justificando a decisão pelo facto do “plano anti-crise do governo levar ao aumento da despesa pública, o que conjugado com a previsão de contracção do crescimento da economia de 1,5%, poderá levar o défice orçamental a valores na ordem dos 4,6%” (3). Acrescenta ainda o relatório que, Portugal irá enfrentar “ desafios cada vez mais difíceis ao tentar impulsionar a competitividade e o fraco crescimento persistente devido ao elevado peso da dívida e aos grandes desequilíbrios”. Também que “o rimo da consolidação orçamental já começou a abrandar e que o ritmo da reforma do Estado, essencial para conter a despesa, já demonstrou ser menos bem sucedido que o esperado”.
Por outro lado, a OCDE fez saber esta semana aos seus Estados membros que, apesar da crise financeira e económica, a sustentabilidade orçamental deve manter-se, como uma prioridade para os países da área euro. O relatório económico para a zona Euro, coloca Portugal como um dos países mais expostos à actual crise. Uma das razões apontadas é seu elevado grau de endividamento público, sendo que 15% deste, tem menos de um ano.
Abro um segundo parênteses para referir o seguinte: Se vier a confirmar-se, como tudo indica, que a agência de ´ rating ´ desça a nota a Portugal de AA para AAA (2), o nosso país vai pagar um preço muito mais alto pelo dinheiro, complicando ainda mais a gravidade da situação económica/financeira do país. (Vou retornar a este tema especifico numa das próximas crónicas, mas não posso deixar de vos informar desde já que, só a ameaça de descida da nota no curto prazo, foi o suficiente para que as taxas de juro a que o mercado está disposto a emprestar dinheiro ao Estado português, tivessem subido ontem para o valor mais alto desde que existe o euro. É claro que esta situação irá repercutir-se a curto prazo aos bancos, às empresas e às famílias).
Perante o cenário traçado pela S&P e face às recomendações da OCDE, parece reforçar-se a ideia que, no actual quadro de crise profunda e prolongada, o investimento público deve ser cirurgicamente seleccionado de modo a que possa produzir-se os seus efeitos no curto e médio prazo. Nesse aspecto enquadra-se o pacote de estímulos anunciado pelo governo para fazer face à crise. O mesmo já não se pode dizer dos grandes investimentos, como o TGV, conforme tive oportunidade de escrever a semana passada e de outros investimentos que eventualmente o Governo se veja tentado a lançar na ânsia de evitar uma travagem maior na actividade económica, salvar empresas e evitar mais desemprego. É que se o endividamento excessivo e a falta de produtividade são as nossas maiores fragilidades e se esta não é a melhor altura para combatê-los, porque isso só agravaria a recessão, também não é menos certo que esta também não é a melhor altura para agravar mais ainda estes indicadores.
Mas a conclusão mais importante a tirar do relatório da S&P, é que as reformas estruturais levadas a cabo pelo Governo foram insuficientes, pois não tiveram o impacto desejado. “Sem reformas, defendeu Frank Gill, analista chefe da S&P, Portugal vai continuar a ter que fazer face a vários desequilíbrios acumulados ao longo de anos, tais como défice externo superior a 10% do PIB que mais tarde ou mais cedo vai ter que ser corrigido”. Salientou ainda a “ falta de competitividade das empresas, que obrigaria a uma necessária redução dos salários reais” e a pouca diversificação das exportações, o que torna o país mais vulnerável face a uma redução da procura externa. Todos estes factores conjugados, segundo Frank Gill, vai fixar a taxa de crescimento do PIB abaixo de 1% nos próximos cinco ou mesmo dez anos.
A crise internacional expôs a fragilidade da nossa economia e a verdade é que, apesar de muita propaganda política feita, as reformas estruturais que foram pedidas com tanto sacrifico aos portugueses, não foram suficientes. Estes apertaram o sinto e a situação orçamental não chegou a ser sólida. Os programas de reformas lançados, não corrigiram os piores males da nossa economia. E agora? O que é que vai acontecer?
Segundo Gill, a subida do défice para valores próximos de 4 por cento, em 2009 e 2010 até nem será o mais grave. O mais grave será o que irá acontecer em 2012 ou 2013.
Lamento ter que vos voltar a dizer que, enquanto o país não estiver todo ele mobilizado para as reformas, para a melhoria da nossa competitividade externa e para melhoria significativa da produtividade; enquanto os nossos governantes e autarcas servirem em primeiro lugar os interesses partidários e tiverem como primeira prioridade ou a conquista do poder ou a sua manutenção; enquanto os sindicatos em vez de protegerem os associados servirem eles próprios os interesses de partidos e enquanto todos eles andarem à procura de protagonismo, esquecendo-se que em primeiro lugar deveria estar o cumprimento do serviço público a que se obrigaram quando ocuparam os lugares, nunca iremos saber o que nos irá acontecer no futuro e vislumbramos sempre que nada será de muito bom, sendo também que, todos os que nos estão a observar de fora, irão sempre fazer as piores previsões para o desenvolvimento de Portugal e a colocar-nos sempre nos últimos lugares de qualquer ranking económico.

1) – O rating de um estado é uma avaliação do risco de emprestar dinheiro a esse país, consoante a sua capacidade de pagar as suas dívidas no futuro. E atribuído às agências de notação de crédito privadas como a S&P o objectivo de informar todo o mercado sobre qual a avaliação que fazem desse risco que depende da saúde das finanças públicas do país e da expectativa de evolução das suas receitas e despesas.

(2) – As notas de avaliação do risco variam entre o máximo de risco de ´ AAA´ e um mínimo de risco de `D´.

(3) – Reparem na discrepância dos indicadores económicos fornecidos pela F&P e os que foram ontem indicados pelo Governo.
Serrone

domingo, 11 de Janeiro de 2009

Pode ser feito investimento público sem o crescimento explosivo da dívida?


Na sua mensagem de ano novo, o Presidente da República afirmou que “o futuro será 2009 e os anos que a seguir vierem”. Numa conferência promovida pelo Diário Económico, o Primeiro-ministro Sócrates, citando Keynes, disse: - “No longo prazo estaremos todos mortos”, acrescentando ainda: -“Ninguém aqui está interessado em saber o que acontecerá daqui a dois anos. E a verdade... (continuou) é que há boas razões para essa atitude, porque o Cabo das Tormentas, o momento mais difícil vai ser justamente 2009”.
As frases proferidas por Cavaco e por Sócrates, não poderiam ser mais esclarecedoras quanto à visão que cada um tem sobre a forma e o momento de gastar os dinheiros públicos. Esta distinta maneira de olhar para as mesmas realidades, não resultam só das divergências de opinião pessoais, mas também são fruto das posições institucionais que cada um ocupa.
O Presidente da República ao sublinhar que é preciso falar verdade aos portugueses, defendendo que em ano de crise é necessária ponderar e agir com selectividade na utilização dos dinheiros públicos, adequar os custos aos benefícios, para que no final da crise Portugal não esteja pior do que quando nela entrou, está a dar um sinal ao governo para reflectir antes de se decidir pela realização de grandes obras que aumentam a dívida externa e que hipotecam as gerações futuras.
Por outro lado, o Primeiro-ministro, muito ao seu estilo, com elevada carga cénica/dramática, ao afirmar que “esta é uma crise que se vive uma vez na vida”, provavelmente estará a falar verdade, como pediu o presidente, mas a frase está carregada de intenção política. Em ano de eleições, Sócrates já definiu a sua estratégia eleitoral e como já se começou a perceber, o tema crise será usado e abusado para capitalizar eventuais vantagens políticas adicionais.
As grandes obras públicas, Alcochete, TGV e também a nova ponte sobre o Tejo, já estavam nos planos do Governo para serem lançados ainda este ano e nem a crise nem os recados do Presidente conseguiram ainda alterar a sua posição. O executivo de José Sócrates parece manter a vontade política de lançar estes projectos durante 2009, porque sabe que os custos provenientes destes investimentos serão marginais no orçamento deste ano e, sabe melhor ainda que o lançamento destas obras pode ter um impacto favorável na opinião pública em ano de eleições.
Mas é também preciso que os portugueses tenham conhcimento que os custos desses investimentos irão pesar dramaticamente na dívida externa Portuguesa nos próximos anos, ou seja, no valor dos impostos que cada um de nós vai ter que pagar no futuro, ou, na pior das hipóteses, que esses custos irão contribuir para a perda de património e soberania económica por transferência de empresas e bens para as mãos estrangeiras que nos estão a emprestar dinheiro.
Todos percebemos que essas grandes obras, não se irão desenvolver a tempo de poderem começar a contribuir para relançar a economia em 2009 e que, naturalmente, não fazem parte das medidas a implementar pelo governo para enfrentar a crise. São projectos estruturais para o país, planeados e executados numa geração e não projectos de ocasião. São obras importantes para a modernidade e competitividade de Portugal no médio e no longo prazo.
Não estou a colocar em causa a necessidade de realização desses investimentos, mas sim a afirmar que não é prudente o país avançar já este ano com todos estes projectos. Como já tantos economistas nacionais e internacionais afirmaram e o Primeiro-ministro repetiu, não estamos a viver uma crise qualquer, como as que vivemos no passado recente. Esta é uma crise internacional bastante grave que se abateu sobre o mundo e que atingiu Portugal num momento particularmente difícil. Ninguém poderá ter a certeza do tempo e da gravidade com que esta crise irá afectar a economia portuguesa. Parece haver alguma unanimidade em estimar que este e o próximo ano são anos de recessão particularmente difícies e não de retoma.
Por tudo isto, não seria mais prudente, o governo seguir os conselhos do Presidente, utilizando unicamente os escassos recursos públicos em investimentos que possam valorizar a competitividade da oferta nacional no curto prazo? Promover obras públicas mais pequenas que sustentadamente possam desenvolver a economia nacional, utilizando maioritariamente recursos nacionais? Fazer investimentos que promovam a redução da dependência energética do exterior?
Vítor Constâncio, na apresentação do Boletim Económico de Inverno, na terça-feira passada defendia isso mesmo, que, para combater a crise, deveria ser dada preferência “às despesas de investimento de imediata realização e rápido acabamento para não implicarem grandes despesas futuras”. Principio que o Governo parece também não estar a adoptar nas Parcerias Públicas – Privadas (PPP) para a concretização do Plano Ferro - Rodoviário Nacional e em outras PPP da Saúde. No entanto, não poderei deixar de reconhecer que os investimentos anunciados pelo governo para as escolas, para as energias renováveis e telecomunicações, são um pacote interessante de boas medidas para ajudar a fazer frente à crise.
Em suma, em tempo de grave crise internacional e simultaneamente de grave crise estrutural de Portugal, o que parece mais correcto em termos de opções para minimizar os seus efeitos e promover o máximo de estabilidade económica e social, será recorrer a mais investimento público com efeitos de curto prazo sem pôr em risco as contas das gerações futuras, criar incentivos ao investimento privado e às exportações, aplicar menos impostos sobre as empresas e dar mais apoios sociais.

Serrone, 11 de Janeiro de 2009

sábado, 10 de Janeiro de 2009

E agora Barak Obama?


Martin Wolf escreveu esta semana no Financial Times que esta crise é a mais grave que alguma vez se abateu sobre os países desenvolvidos desde a II Guerra Mundial. Começa a crónica com esta frase “ Bem-vindos a 2009, ano em que será traçado o futuro da economia mundial, quiçá por várias gerações”.
Barak Obama disse recentemente numa entrevista “ Eu não acredito que seja tarde demais para mudar de rumo da política económica, mas será senão forem tomadas medidas dramáticas tão cedo quanto possível”.
São duas posições que convergem na ideia inquestionável, que estamos perante uma grave crise que exige medidas urgentes e profundas. Quanto à gravidade e à urgência das medidas, parece ninguém ter dúvidas quanto a isso. O acto político de o deixar acontecer sem nada fazer, já deu provas irrefutáveis das implicações globais nefastas que dai podem advir, basta recordar o que aconteceu após a falência do Lheman Brothers. O problema mais complicado que se coloca está no patamar das medidas propriamente ditas. Sejam elas quais forem, têm que ser as medidas certas no momento certo, pois parece não existirem recursos suficientes nem grande margem de manobra para se implementarem planos do tipo B.
Este vai ser o foco principal de atenção que a nova administração americana irá ter que enfrentar. Barak Obama está a preparar o seu programa de ataque à crise e quando no dia 20 deste mês tomar posse, o mundo irá começar a perceber se as medidas do líder americano irão ou não levar à retoma. Segundo o Wall Strett Journal o plano de recuperação económica que Obama vai propor custará aos cofres públicos cerca de 570.000 milhões de euros, valor só ultrapassado pelo custo da II Guerra Mundial ao erário norte-americano. É uma quantia enorme que irá fazer aumentar o défice das contas públicas americano para um valor monstruoso de 8%, mas que poderá não ser suficiente, opina Martin Wolf.
Para os mais incrédulos quanto à importância da economia americana para o desenvolvimento económico dos países mais desenvolvidos, quero apenas recordar que esta tem sido nas últimas décadas o motor da economia mundial e que, apesar de nos últimos anos estar a diminuir o seu peso, o seu PIB continua ainda cerca de ¼ do PIB do planeta. Já para não falar no facto do mundo estar a viver uma crise que na verdade começou na América. À partida, será impensável pensar numa retoma económica mundial deixando para trás os Estados Unidos.
No passado recente foi o consumo da América que ajudou o mundo a sair das crises e agora? Será possível que o mesmo volte a acontecer? Como é que as famílias americanas, a enfrentar a escalada de desemprego e elevado grau de endividamento, poderão fomentar não só a procura de bens e serviços nacionais, mas também aumentar a procura externa?
Será que o estímulo orçamental em grande escala que Barak Obama vai propor ao senado, basta para aumentar a produção para níveis capazes de conter a escalada do desemprego e por outro lado dinamizar a economia de modo a fazer crescer o nível de confiança das famílias e dos investidores? Será possível retomar a criação de riqueza sustentável que dê para as pessoas irem pagando as suas dividas e continuarem a consumir os excedentes nacionais e mundiais?
Face à força do pensamento deixado no último parágrafo da crónica de Martin Wolf, não posso deixar de o traduzir e de o transcrever para nossa reflexão:
“Sabemos mais no presente que sabíamos no passado. Os Estados Unidos têm hoje um presidente, Barack Obama, com um vasto capital político e uma administração – já a partir de 20 de Janeiro – disposta a fazer tudo o que estiver ao seu alcance. O problema é que os Estados Unidos não estão suficientemente fortes para se poderem salvar sozinhos e a economia mundial. Precisam de ajuda, principalmente a que possa vir de países com excedentes orçamentais. Os Estados Unidos e um pequeno grupo de países desenvolvidos não podem continuar a absorver os excedentes de bens e de poupança do resto do mundo. A crise em curso é a prova disso mesmo. O mundo mudou, logo, as políticas também têm de mudar e já.”

Serrone, 10 de Janeiro de 2009

domingo, 4 de Janeiro de 2009

E agora Portugal?


Introdução

Conforme já devem ter notado, nunca particularizei a situação do nosso país nas crónicas que escrevi. Tenho dado preferência a análises e reflexões macroeconómicas de âmbito mais vasto, incluindo nestas a generalidade dos países ocidentais e por vezes também os países emergentes.
Hoje, sem ter planeado previamente, confesso, decide partilhar convosco algumas ideias, informações e reflexões sobre aspectos de natureza macroeconómica que afectam Portugal.

A situação económica portuguesa é extraordinariamente preocupante e vulnerável. O cenário macroeconómico é mesmo um dos mais negros dos países desenvolvidos, senão vejamos:

Níveis da Dívida Externa e défice permanente da Balança de Transacções Correntes demasiado elevados e com tendência para crescer, repercutem-se em riscos de crédito e de incumprimento por parte de empresas e famílias, revelam consumos inadequados, investimento amorfo e acima de tudo um comércio externo onde as exportações crescem menos do que as importações. Se juntarmos a tudo isto o facto das previsões mais optimistas de crescimento do PIB não ultrapassar os 0,5% para 2009, temos na verdade fardos demasiado pesados para enfrentar a recessão.

Dívida Externa Portuguesa

Como se sabe a Dívida Externa total é a somatória dos empréstimos contraídos no exterior pelo próprio Estado, por outras instituições públicas e privadas e pelos financiamentos do sector da banca.

No final do primeiro semestre de 2008 a dívida externa total portuguesa atingia o valor máximo de sempre, 344 mil milhões de euros (aproximadamente o dobro do PIB nacional), ou seja 200% do PIB*. Para mais facilmente se perceber este montante absurdo, basta pensar que, mantendo os mesmos níveis de produção, todos os portugueses teriam em teoria que trabalhar dois anos sem ganhar vencimento para poderem pagar a dívida externa do país.

Este “monstro” divide-se da seguinte forma:
-Divida do Estado: 90 mil milhões (26%)
-Dívida de Outras Instituições: 65 mil milhões (19%)
-Dívida do sector bancário: 189 mil milhões (55%)

Se considerarmos como vulgarmente se faz, o valor do endividamento, retirando os financiamentos da banca, a dívida de Portugal ao estrangeiro vai fixar-se perto de 100% do PIB no final de 2008. Cerca de 160 mil milhões de euros, que a uma taxa de juros de 5% ano corresponde ao pagamento de juros anuais de 8 mil milhões de euros, verba que por si só, daria para construir o aeroporto de Alcochete e todas as acessibilidades previstas e ainda sobrariam 2 mil milhões de euros.

Se considerarmos só a dívida do Estado, retirando do montante total, os financiamentos da banca e os empréstimos externos contraídos por outras instituições, esta representa cerca de 60% do PIB.

* -PIB Define-se como o valor dos bens e serviços finais líquidos da sua componente importada e depois de deduzidos os que são consumidos na produção de produtos intermédios.

Destes números, resulta claro para todos nós, mesmo para aqueles que estão menos habituados a reflectir sobre estas matérias, que atingimos níveis de endividamento muito preocupantes e insustentáveis, tanto mais porque estes têm vindo a agravar-se consecutivamente, ano após ano, desde 2000.

A dívida externa portuguesa mostra em primeiro lugar que Portugal não é um país competitivo, ou seja a grande maioria das empresas nacionais não o são, razão pela qual temos dificuldade em aumentar as nossas exportações. Em segundo lugar, o que todos já sabemos há muito, que o padrão de consumo das famílias nacionais é desajustado, ou seja que temos consumido mais do que a riqueza que produzimos e que essa diferença tem sido alimentada a crédito.

Défice da Balança de Transacções Correntes

A prova real do que acabei de referir é o valor exageradamente elevado do défice da balança de transacções correntes. Antes porém e para melhor se perceber os números, gostaria que ficassem esclarecidos os conceitos de Balança de Transacções Correntes, ou simplesmente Balança Corrente.

A Balança Corrente, trata do registo contabilístico dos fluxos económicos da sociedade com o exterior (através da fronteira), sendo que esta resulta da soma de quatro Balanças:
- A Balança de mercadorias ou comercial (regista importações e exportações de bens).
- A Balança de serviços (transacções com o exterior, seja de transportes, turismo e outros serviços)
- A Balança de rendimentos (salários de trabalhadores estrangeiros, juros e lucros de empresas a actuarem fora dos países)
-A Balança de transferências Unilaterais (maior fatia são as remessas de emigrantes privadas)
Nota: Não entram na Balança Corrente a balança de capitais e a balança financeira. A primeira regista por exemplo a entrada dos fundos europeus e na segunda estão os investimentos feitos por estrangeiros no nosso país e o investimento de portugueses no estrangeiro.

“O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que o défice BTC em 2009 chegue em Portugal ao máximo histórico de 12% do PIB”, um dos valores mais altos do mundo ocidental, só ultrapassado pelo défice da Grécia (16% do PIB).

Quer isto dizer que no ano de 2009 Portugal vai ter um défice entre o valor de venda e de compra das transacções de bens, serviços, rendimentos e transferências feitas com os países estrangeiros, no valor aproximado de 19 mil milhões de euros (só para termos sensibilidade para este número, a verba daria para construir 3 aeroportos de Alcochete e ainda sobrava muito dinheiro).

Falta de investimento e falta de produtividade são as principais causas e fragilidades apontadas. Não temos conseguido melhorar o investimento nacional nem atraído suficiente investimento estrangeiro.

Tal deve-se muito mais a razões estruturais do que à crise internacional. Portugal é um dos países menos competitivo da Europa, apresentamos desvantagens tecnológicas e uma ambiente institucional pouco favorável, indica um estudo recente do BCE. A culpa também é da valorização do euro face ao dólar e da situação periférica de Portugal, conclui o mesmo estudo.

Conclusões

Continuamos a divergir e não a convergir dos restantes países da Europa. Todos os anos somos ultrapassados por um dos novos países membros. Mantemos as mais baixas taxas de crescimento. Apresentamos os maiores desequilíbrios da balança de pagamentos e o mais rápido crescimento da dívida, dos países da União Europeia. Pior seria impossível e estamos a empobrecer relativamente à Europa e a hipotecar a economia portuguesa ao exterior.

Que soluções?

Os nossos políticos têm dificuldade em mostrar as realidades que vos expus e falar sobre elas, até porque a sua esmagadora maioria são incompetentes para lidar com este cenário. E eles sabem que nada pior para a sua imagem, do que trazer ao discurso político factos que para eles são autênticos quebra-cabeças. Mesmo aqueles que melhor estariam preparados para lidar com o assunto, se ousassem apontar algumas saídas para atenuar esta bolha monstruosa que se formou, seriam imediatamente aniquilados pelas máquinas partidárias e estas arriscariam a não ganhar eleições.

Meus caros leitores, não sou especialista em economia, como já vos disse, sou apenas alguém que gosta de se manter informado e procurar estudar e reflectir sobre assuntos de máxima importância para todos nós, enquanto cidadãos de Portugal e do mundo, mas sei que a situação macroeconómica do país é insustentável. Se não se inverter esta tendência de despesismo, falta de produtividade, falta de investimento e se inverter a tendência da dependência externa, a bolha vai rebentar.

Temos pela frente uma tarefa muito árdua e difícil que exigiria uma mudança radical de vida de todos os portugueses, dos gestores das nossas organizações, das próprias instituições, dos nossos governantes e da sociedade em geral. Em primeiro lugar será preciso que todos tenham a consciência plena da gravidade da situação e depois não fazerem como a avestruz e colocar a cabeça enterrada na areia. A cabeça enterrada na areia têm tido todos aqueles que tendo responsabilidades e a consciência da gravidade da situação, têm deixado passar os dias impávidos e serenos e a dívida externa portuguesa e o défice externo a aumentar, a aumentar….

Serrone

sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

2009, o Ano da Incerteza


Duvido que algum analista, economista ou macroeconomista, possa traçar tendências, comprometer-se com previsões e fornecer expectativas económicas, assegurando probabilidades de ocorrência consistentes para os próximos vinte e quatro meses.


Vivemos em tempos de grande incerteza económica, disso ninguém tem agora a mais pequena dúvida. Há precisamente um ano, pairava a esperança que os efeitos do credit crunch ficassem restringidos ao sistema financeiro e que as empresas e a economia real não seriam afectadas. Em Outubro, em plena crise financeira, a OCDE previa que nas economias líderes, o investimento empresarial cairia na primeira metade de 2009 e recuperaria ligeiramente na segunda metade. Estas previsões assentavam num cenário de recessão ligeira, cada vez mais, considerado demasiado optimista face aos sinais macroeconómicos que sucessivamente se vão conhecendo. A maior parte das economias desenvolvidas do mundo ocidental começam o 2009 em recessão, mostrando grandes dificuldades para manter a actividade económica. A economia americana, a maior do mundo (representa 21% do PIB global), está a lutar contra a maior crise de confiança desde a Grande Depressão. As economias emergentes apresentam sinais de abrandamento e um crescimento mais lento que num passado recente.


As medidas inéditas e sem precedentes que os diversos Estados têm implementado para repor a confiança, desbloquear o acesso ao crédito, injectar liquidez nos bancos, garantir depósitos e as dividas institucionais, ainda não dão provas de poderem assegurar a inversão da trajectória e a retoma do crescimento económico.


Os Estados sentem-se cada vez mais tentados a recorrer ao proteccionismo junto de segmentos económicos de grande empregabilidade, numa luta sem tréguas para evitar o agravamento do sistema, o aumento de falências, a diminuição do poder de compra das famílias e consequente o aumento dos níveis de degradação social. Estas acções não são isentas de riscos e poderão, também elas, ter consequências colaterais a médio e longo prazo, não só no aumento dos défices já demasiados altos de alguns países, mas também ao nível dos mercados, pois poderão surgir novas barreiras comerciais que impeçam a liberalização económica, que continuo a considerar factor imprescindível para se estimular o crescimento.


A desconfiança persistente junto dos agentes económicos, está ainda longe de chegar ao fim. Na verdade, tudo é ainda muito recente. A bolha financeira rebentou há cerca de três meses e o sistema financeiro, apesar de muito injectado, senão ainda doente, encontra-se na melhor das hipóteses em estado de convalescença.


A contaminação da doença financeira na economia real, que por si só já se encontrava em estado deplorável no mundo ocidental, a meu ver, ainda mal começou a fazer-se sentir. As dificuldades das empresas em recorrerem ao crédito, apesar das medidas e dos incentivos dados pelos Estados junto da banca, está a aumentar. Verifica-se uma maior dificuldade das empresas manterem os níveis de investimento que tinham. Muitas das organizações empresariais vão ter necessariamente de se refinanciar durante o ano de 2009, para manterem a sua actividade e assim sobreviverem à crise. Muitos destes refinanciamentos, relacionam-se com as próprias dividas a vencer durante o ano, o que dificulta mais ainda, não só a posição dos investidores, mas também a da própria banca.

As taxas de incumprimento das empresas junto das instituições financeiras estão a acentuar-se, aumentando por sua vez as perdas de crédito dos bancos. Uma sucessão de incumprimentos poderão ter um efeito multiplicador e abrir novos buracos no sistema financeiro já debilitado.


O segmento imobiliário que esteve na origem desta crise epidémica, está a mostrar sinais alarmantes de abrandamento e a revelar “rastilhos ainda acesos “ demasiadamente perigosos para as receitas dos bancos. Não só devido ao incumprimento de promotores imobiliários que não vendendo imóveis, terão maiores dificuldades em cumprir as suas obrigações, mas também, porque tendencialmente, existirão mais famílias que irão entrar em incumprimento no que se refere ao pagamento das prestações dos contratos de crédito concedidos para aquisição de casa própria.


Tudo isto, apesar das taxas de juros se apresentarem, neste início de ano, com os valores mais baixos de sempre, facto este por si só, reconhecidamente não traz benefícios directos à banca e que se sabe não ser do seu interesse manter.


O acesso aos créditos pessoais para aquisição de automóveis e de outros bens de consumo, está cada vez mais dificultado, porque os bancos, com menos liquidez e com receios de novos incumprimentos, mostram-se cada vez mais cautelosos.


A banca, tendencialmente, tudo indica, irá ela própria diminuir substancialmente o volume de negócios, acentuando os sinais evidentes de recessão económica. O sistema financeiro está a lidar neste momento com grandes níveis de incerteza, transmitindo este sentimento ao resto da economia.


Por outro lado, todos percebemos a razão, os agentes económicos continuam a desconfiar dos sistemas reguladores e supervisores. Estes falharam e continuam a falhar, facto evidenciado pela sucessão de escândalos que se têm tornado públicos, citando apenas como exemplo, o recente caso Bernard Madoff.


Quando tempo vai durar ainda a desconfiança? Que medidas terão ainda que se tomar para restituir a confiança aos mercados? Quando é que a economia ocidental vai voltar a crescer?


As respostas a estas perguntas, conforme referi no início, não são fáceis de dar. A globalização ajudou a contaminar e a aprofundar os efeitos da crise financeira e por isso é previsível que existam ainda raízes epidémicas não detectadas que se encontram em estado latente, prestes a mostrar os seus efeitos. Enquanto estas forem surgindo, não será fácil voltar a acreditar no sistema. Por outro lado, não existem modelos económicos suficientemente testados e abrangentes para tratar todos os dados conhecidos e com eles se obterem respostas concretas às nossas dúvidas e incertezas.


Vivemos num mundo turbulento e de grande volatilidade. Espero e desejo que, a médio prazo possamos acrescentar sustentadamente, que os sistemas económicos se reinventaram permitindo contornar a crise.


Serrone, 2 de Janeiro de 2009

quinta-feira, 1 de Janeiro de 2009

2008 - Actualidades do Serrone em Retrospectiva



Os progressos tecnológicos dos últimos anos têm permitido desenvolver complexas redes de comunicação e de transmissão de dados que estão em permanente evolução e expansão, permitindo-nos contactar e partilhar informação mais rapidamente do que nunca.


Os cabos de fibra óptica que transportam impulsos de luz, são as auto-estradas da informação. Convertendo dados digitais em sinais luminosos, uma fibra minúscula pode transportar fluxos de informação à velocidade da luz, podendo dar a volta à terra sete vezes num segundo. As chamadas telefónicas internacionais e as ligações Internet de alta velocidade fazem-se agora a custos relativamente baixos e tornaram-se acessíveis à escala global.


A Internet é a rede informática que liga praticamente todos os países do mundo e é utilizada por centenas de milhões de pessoas para enviar informações umas às outras instantaneamente. A Internet é o sistema de computadores ligados entre si através de redes. A ferramenta WWW (World Wide Web) é o ciberespaço (espaço virtual) onde existe toda a informação (documentos, sons, vídeos). Trata-se de um sistema que cria, organiza e interliga a informação permitindo que as pessoas tenham acesso a esta com uma simples pesquisa, sendo que os dados originais estão nos computadores espalhados pelo mundo.


O Microchip de reduzidas dimensões (podem ser mais pequenos do que a unha do dedo mindinho) são feitos de silício, possuem transístores ligados por pistas e são que capazes de tratar cerca de 10.000 milhões de instruções por segundo. Em 1971 o número de transístores que cabia num chip era 2000. Desde essa altura o número tem estado sempre a aumentar, sendo que, actualmente, o número e transístores existentes num único chip podem ser superiores a 500 milhões.


Na Wikipédia a definição de blog, blogue ou caderno digital é a seguinte: “ página da WEB, cuja estrutura permite a actualização rápida a partir de acréscimos de tamanho variável, chamados artigos. Estes são, em geral, organizados de forma cronológica inversa, costumam abordar a temática do blog e podem ser escritos por um número variável de pessoas, de acordo com a política do blog.” O primeiro Blogue surgiu em 1997, sendo que só no ano de 1999 é que diversos programas foram postos na WEB para a construção de blogues. No ano 2000 existiam ainda poucos milhares, três anos depois eram cerca de 4 milhões. Actualmente existem cerca de 112 milhões, sendo criados diariamente 120.000 em todo o mundo.


Este espaço no qual escrevo é um, entre muitas dezenas de milhões de páginas que existem na Web, que se enquadram na categoria de blogues. Sendo este um veiculo privilegiado de transmissão e partilha de saberes, nesta nova era da sociedade do conhecimento, não poderia deixar de nela dar o meu modesto contributo, criando o “Actualidades do Mundo / Actualidades do Serrone”.


Como todos os que me têm acompanhado ao longo destes meses conhecem, tenho relevado alguns acontecimentos e opiniões que no meu entender merecem destaque e reflexão, dando sempre que possível, também, a minha visão sobre o mundo que está à vista de todos nós.

Destaques de 2008 em Retrospectiva:


Artigos


Maio
-A crise dos alimentos
-A crise do petróleo
-Até quando pode durar a crise do petróleo?
-Este mundo louco que os homens têm construído.
-Com que direito?
-Efeitos do Aquecimento do Planeta.
-Crise…De quem é a culpa?


Junho

-Travar a especulação.

Julho
-Recessão à vista na Zona Euro


Agosto
-Globalização, “Guilty or Not Guilty?”

-Dia 9 de Agosto de 2007, o dia em que a crise chegou à Europa.
-A verdadeira razão do conflito na Geórgia

Outubro
-Que pena, não podermos dar aos nossos filhos o que herdámos, o fascínio de um dia poderem ficar ricos!

-O que será preciso fazer mais para restabelecer a confiança nos mercados?
-Tradição Estado e Mercado.


Dezembro
-Vivemos um mundo pós-americano, segundo Fareed Zakaria

-A Era da Socieadade Pós Capitalista

Flash Enciclopédico e Informativo


-O mínimo que se deve conhecer da crise financeira
-O que é o efeito de estufa?
-Globalização
-Assistimos em tempo real ao 3.º choque petrolífero.
-Programa Nuclear Iraniano
-O poder de influência dos lobbys
-O conflito Israel-Palestina
-Ataques em Bombaím
-A Revolução Tecnológica

sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

A Era da Sociedade Pós Capitalista


Introdução

Peter F. Druker é considerado o pai da Gestão Moderna. Autor de cerca de 30 obras de referência, dá aulas de Ciência Política e Gestão na Claremont Graduate School (Califórnia), transformada no seu centro de Gestão para Peter F. Drucker Graduate School of Management.


A sua obra Post Capitalist Society foi escrita em 1993 e apesar disso continua surpreendentemente actual. Dando-nos uma visão histórica, Peter F. Drucker ajuda-nos a compreender a evolução da sociedade capitalista para a actual sociedade do conhecimento. Permite-nos compreender o presente e proporciona-nos uma curiosa visão do futuro.

Neste breve artigo, que ousei empreender, é relevado o papel do conhecimento no que concerne à sua evolução na transformação da sociedade, atendendo a uma perspectiva marcadamente económica.

Ciclicamente, as sociedades transformam-se reorganizando-se, dando lugar a mundo novo. “Quem nasce nessa altura não consegue sequer imaginar o mundo em que viveram os avós e em que nasceram os pais” (Peter F. Drucker – Post Capitalist Society, 1993).

Um pouco de história

Assistimos em tempo real a uma nova transformação, a da sociedade de organizações, cujo principal recurso é o conhecimento. Peter F. Drucker chama a esta nova era a “ sociedade pós capitalista”.

A última transformação do género, havia ocorrido no início da segunda metade do Século XVIII, dando origem à era da sociedade capitalista. Na sociedade capitalista, os factores de produção foram o capital, a terra e o trabalho.

Antes de 1750, o conhecimento, tanto no ocidente, como no oriente, sempre foi encarado como dirigido ao ser. O objectivo do conhecimento era o autoconhecimento e o autodesenvolvimento. O resultado que se pretendia obter passava-se ao nível do interior do indivíduo.

Em 1750, com a reinvenção da máquina a vapor e a sua utilização como fonte eficaz de energia, deu-se o início ao capitalismo e simultaneamente à revolução industrial. O conhecimento começou a ser aplicado ao fazer.

Na segunda fase do capitalismo, que começou em 1880 e culminou no final da 1.ª guerra mundial, o conhecimento apareceu com um novo significado aplicado ao trabalho, produzindo a “Revolução da Produtividade”. Como se sabe, Taylor foi o grande obreiro do conceito de produtividade.
Graças aos princípios que estabeleceu, foi possível espalhar a riqueza também aos trabalhadores detentores do conhecimento e não só aos capitalistas como até ai, deixando os primeiros de ser proletários, para passarem a ser burgueses, tornando-se assim estes, os verdadeiros beneficiados do capitalismo.

Face ao exposto, segundo Peter F. Drucker, subjacentes às três fases da alteração do conhecimento estão a Revolução Industrial, Revolução da Produtividade e Revolução da Gestão.

A “Revolução da Gestão”

Esta nova transformação que teve inicio após a segunda guerra mundial e, defende Peter F. Drucker, terá a sua máxima força, provavelmente na segunda década do século XXI. Nesta sociedade, que já existe, os factores de produção são os trabalhadores do conhecimento e dos serviços.

O autor chama a esta fase a “Revolução da Gestão”. O conhecimento está a ser sistematicamente utilizado com o propósito de definir que novo conhecimento é necessário, se é funcional, e o que se deve fazer para o tornar eficaz. Por outras palavras, o conhecimento está a ser utilizado na inovação sistemática. “O conhecimento é aplicado ao próprio conhecimento”.

Como é que o conhecimento é aplicado ao próprio conhecimento?

A pergunta em título tem três respostas possíveis:

1.ª resposta - Melhoramento contínuo do processo, do serviço e do produto.
2.ª resposta -Exploração contínua do conhecimento existente para desenvolver novos e diferentes produtos, processos e serviços.
3.ª resposta -Inovação genuína.

Que teoria económica se pode aplicar à sociedade do conhecimento?

A primeira grande dificuldade será quantificar o conhecimento, avaliar a produtividade (rendimento) do conhecimento.

O que é o rendimento do conhecimento?

Em boa verdade ainda ninguém pode responder a esta pergunta. Não podemos ter uma teoria económica se não houver um modelo que traduza os acontecimentos económicos em relações quantitativas. Sem ele, não há a possibilidade de fazer uma escolha racional e como já dissemos neste espaço, escolhas racionais é o que se trata em economia.

Peter F. Drucker fala-nos do conhecimento como recurso económico, mas todas as teorias económicas existentes, seja Kenesiana, neokeynesiana, clássica ou neoclássica, não assentam os seus postulados neste recurso.

Estas teorias fazem depender a economia ou do consumo ou do investimento: Keynesianos e neokeynesianos fazem-na depender do consumo; clássicos e neoclássicos afirmam que depende do investimento.
Na economia do conhecimento, nenhum destes factores parece assumir o controlo. Com rigor, não há indício de que um maior consumo na economia conduza a uma maior produção do conhecimento, ou que um maior investimento o faça.

Do exposto se conclui que é necessária uma nova teoria económica que coloque o conhecimento no centro do processo. “Só essa nova teoria poderá explicar a economia actual, o crescimento económico e a inovação ”.
Exigências da Gestão

Até se conseguir descobrir a teoria económica da produtividade do investimento no conhecimento, o que poderá nunca vir a acontecer, temos que adoptar as melhores práticas de gestão nas nossas organizações para tornar o conhecimento cada vez mais produtivo, a partir daquilo que já é conhecido.

Um dos grandes erros de gestão é não se mobilizar os múltiplos conhecimentos de que se dispõe. Por outras palavras, a maior parte do conhecimento disponível não é tornado produtivo, permanecendo apenas como informação.

O conhecimento é universal e a capacidade competitiva de uma organização, de um país ou de uma região estará cada vez mais condicionada ao desempenho da sua gestão, ou seja à maior ou menor facilidade de tornar o conhecimento produtivo.

Serrone

segunda-feira, 8 de Dezembro de 2008



Vivemos um mundo pós-americano, segundo Fareed Zakaria

Introdução:

Em Maio de 2008 foi publicado mundialmente o livro The Post-American, escrito por Fareed Zakaria. Segundo este eminente jornalista, vivemos actualmente num mundo pós-americano. Ao longo de 7 capítulos, Fareed Zacaria faz uma brilhante análise geopolítica e económica que marcaram os acontecimentos da segunda metade do segundo milénio e que marcam o início do século XXI. É-nos dada uma visão histórica das conjunturas e das estruturas de poder, bem como das dimensões - político-económicas, sociais e culturais - de uma realidade que moldou e está moldar o nosso mundo tal como hoje o conhecemos.

Poderemos não concordar no todo ou em parte com a sua análise dos factos e sobre a sua visão da nova distribuição de poder do mundo, mas a sua leitura é essencial e imprescindível para a nossa própria interpretação e análise.

É pois com modéstia que se apresenta uma súmula de alguns dos aspectos mais relevantes do livro, não se devendo dispensar a sua leitura integral.


Fareed Zakaria é doutorado em Ciência Política pela Universidade de Harvard. Foi considerado uma das vinte e uma personalidades mais importantes do século XXI pela revista Esquire e um dos cem intelectuais mais influentes do mundo pelas revistas Foreign Policy e Pospect.
Foi editor executivo de Foreign Affairs e é, desde 2000, o editor da revista Newsweek Internacional.

A terceira grande mudança na era moderna


Segundo Fareed Zakaria, na era moderna, ocorreram três mudanças fundamentais na distribuição do poder que modificaram profundamente a vida internacional.

1.ª – A ascensão do mundo ocidental e o domínio político prolongado das nações ocidentais que começou no século XV com os descobrimentos dos caminhos marítimos e que teve a sua máxima expansão no século XVIII. Esta ascensão produziu a modernidade tal como a conhecemos hoje (a ciência e a tecnologia, o comércio e o capitalismo, as revoluções agrícolas e industrial).

2.ª – A segunda mudança teve lugar nos finais do século XIX com a ascensão dos Estados Unidos. Após a sua industrialização os Estados Unidos dominaram a cena económica, política, científica e cultural durante todo o século XX.

3.ª – Segundo F. Zakaria, actualmente estamos a viver a terceira grande mudança de poderes denominada “ascensão dos demais”.

O sistema internacional que está a emergir é provavelmente diferente de todos os que o procederam. A nível político-militar, continuamos a viver num mundo de apenas uma superpotência. No entanto, em todas as outras dimensões – industrial, financeira, educacional, social e cultural, a distribuição está a mudar afastando-se do domínio americano, definido e dirigido de muitos lugares e por muitas pessoas.

Nas últimas décadas, seguindo o exemplo dos Estados Unidos, muitos países perceberam que havia só uma única forma básica de organizar a sua economia, a liberalização e de abertura ao mercado. Esta mudança ideológica no domínio da economia foi ganhando forma durante os anos 70 e 80, antes da queda do muro de Berlim.

A força financeira que dinamizou a nova era, ocorrida durante essas duas décadas, foi a liberalização dos movimentos de capitais que impulsionou a sua oferta vasta e crescente em todo o mundo.

A globalização trouxe à cena internacional outras grandes potências que irão ter um papel crescente mais importante. Na Ásia, a China, a Índia, o Japão e a Indonésia. Na América do Sul, o Brasil e o México. No continente africano a África do Sul. Também a Rússia quer recuperar o estatuto perdido pelo ex-bloco soviético.

O mundo está a modernizar-se e americanizar-se. Os países estão a tornar-se mais abertos ao mercado e mais democráticos. A ascensão dos demais fará com que o peso relativo dos Estados Unidos seja menor e que o seu espaço de acção diminua.

A ascensão dos demais, embora real, é um processo longo e lento. À medida que a China, a Índia, o Brasil, a Rússia e a África do Sul e uma serie de países mais pequenos crescerem ao longo dos próximos anos, emergirão novos pontos de tensão entre eles. Fricções nacionais, mudanças climáticas, disputas comerciais, degradação ambiental e doenças infecciosas podem todas ir existindo subterraneamente até surgir uma crise.

A resolução de tais problemas e o fornecimento de bens públicos globais, exige um moderador, um organizador, um líder.

A grande pergunta que se impõe é quem e como se irá exercer essa liderança?

Serão os Estados Unidos capazes de afirmar essa nova liderança?

Tendências macroeconómicas preocupantes dos Estados Unidos

Nos Estados Unidos a taxa de poupança é nula e tem caído ao longo das últimas duas décadas, o défice das transacções correntes, o défice comercial e o défice orçamental são elevados, a média do rendimento está estagnada e o endividamento privado é alto.

O mais preocupante é que os Estados Unidos pediram emprestados uns 80% das poupanças mundiais e usaram-na para consumo. Dito de outra forma, eles venderam activos aos estrangeiros para comprar bens consumíveis.

Nos últimos trinta anos, os Estados Unidos tiveram as menores taxas de imposto sobre o rendimento das empresas de entre os principais países industrializados. Hoje têm a segunda taxa mais elevada. As taxas dos Estados Unidos não subiram, a dos outros países é que desceram.

Os custos médicos e de seguros por trabalhador nos sector da Industria é bastante superior aos dos outros países industrializados, o que se constitui como uma desvantagem competitiva. Mais grave ainda é que os americanos perdem o sistema de saúde, se perderem o emprego.

Se o sistema económico tem sido o seu ponto alto, o seu sistema político está a ser o seu ponto fraco. Qualquer progresso sobre questões fundamentais – saúde, segurança social, reforma fiscal – exige compromissos políticos entre as duas forças dominantes e tal não tem acontecido.
A economia tem problemas, a moeda está a desvalorizar-se e o país confronta-se com despesas governamentais crescentes e baixa poupança.

A nível da sua política externa os Estados Unidos têm cometido nos últimos anos diversos erros graves que mancharam e descredibilizaram a sua imagem ao nível da opinião pública mundial.

Os Estados Unidos tornaram-se uma nação consumida pela ansiedade, preocupada, com terrorista e com países malfeitores, muçulmanos e mexicanos, empresas estrangeiras e comércio livre, imigrantes e organizações internacionais. O país mais forte do mundo vê-se a si próprio como se estivesse cercado por forças que estão fora do seu domínio.

O poder Americano

A economia dos Estados Unidos é ainda a maior do mundo desde meados da década de 1880. Os Estados Unidos têm representado aproximadamente cerca de um quarto do produto mundial bruto durante mais de um século (32% em 1913, 26% em 1960, 22% em 1980, 27% em 2000 e 26% em 2007).

Os Estados Unidos gastam mais em investigação no domínio da defesa que o conjunto do resto do mundo e gastam 4,1 do seu PIB em despesas com a defesa, isto sem se arruinarem.

Os gastos dos Estados Unidos em investigação e desenvolvimento mantêm-se mais altos do que na Europa e o grau de colaboração entre as empresas e as instituições de educação não tem rival em lado nenhum do mundo.

Os Estados Unidos estiveram na liderança da diplomacia mundial durante todo o século XX. Foram eles que propuseram a liga das nações a gerir as relações internacionais após a Primeira Guerra Mundial. Eram a potência dominante no final da Segunda Guerra Mundial, quando fundaram as Nações Unidas, criaram o sistema de cooperação económico internacional e lançaram as organizações internacionais decisivas.

Em vez de criarem um império americano, aproveitando a sua hegemonia em todas as vertentes, construíram uma ordem internacional feita de alianças e de instituições multilaterais e auxiliaram o resto do mundo a reerguerem-se concedendo auxílio económico e favorecendo o investimento privado. A peça central deste esforço, o Plano Marshall, custou 100 mil milhões de euros de hoje. Durante o século XX, os Estados Unidos abraçaram a cooperação internacional, não por medo ou por vulnerabilidade, mas por confiança e força.

A modernidade tal como a conhecemos e o crescimento económico mundial que se vive actualmente, teve uma contribuição muito preponderante dos Estados Unidos e esse facto não poderá ser esquecido por todos aqueles que hoje, um pouco levianamente por todo o mundo, vão proferindo frases mais ou menos agressivas contra aquele país.

Pode-se discordar da política das últimas administrações do Estados Unidos, mas isso não poderá fazer-nos esquecer do papel importante que este país teve e ainda tem para o mundo.

A modernidade veio com a ascensão do ocidente e por isso ficou com uma face ocidental. Mas, à medida que o mundo moderno se expande e vai abarcando mais países, a modernidade torna-se um receptáculo de culturas.
Como é que os Estados Unidos poderão liderar o mundo de hoje, de certo modo ajudado a moldar por si próprio, mas construído tendo por base as características e mentalidades próprias de outras culturas diferentes?

O mundo precisa dos Estados Unidos forte a exercer um novo tipo de liderança?

Respostas às questões dadas por Fareed Zakaria

O mundo precisa da liderança da América. É preciso que os Estados Unidos continuem a ter um papel vital no equilíbrio do mundo, embora de modo diferente do que tem sido nos últimos anos.

Os Estados Unidos têm que escolher as suas prioridades. Não podem estar envolvidos em tudo. Os recursos são escassos e não podem ser desperdiçados. Todas as decisões de envolvimento em algumas causas, por mais meritórias que sejam, são uma distracção em relação às questões estratégicas mais vastas que confrontam os Estados Unidos. Por outro lado, terá que se respeitar as decisões de cada um dos países, dando-lhe o seu espaço e o direito ao seu legítimo crescimento, desde que estas sejam feitas de acordo com as regras aceites internacionalmente. Os Estados Unidos não podem cair numa armadilha imperial.

Os Estados Unidos deverão privilegiar a criação de regras, de práticas e de valores pelos quais o mundo se possa reger, em vez de tentar impor os seus interesses particulares no estrangeiro. Com essa opção, conseguirão que os novos países em ascensão, continuem a viver num quadro do actual sistema internacional. Conseguirá assim que a ascensão dos demais não se torne numa espiral competitiva descendente, com as grandes potências a tratarem livremente dos seus próprios interesses e vantagens numa forma que acabaria por destabilizar o próprio sistema.

Tudo isto implica mais do que simplesmente estar presentes em mais reuniões das Nações Unidas e assinar tratados. Quando os Estados Unidos proclamam valores universais, devem exprimir as suas posições cuidadosamente.

Washington deveria reconhecer que, se tem as suas próprias excepções, o mesmo se passa com os outros países. Ou então deveria simplesmente abandonar as suas próprias excepções. Mas não fazer nenhuma das coisas e pregar uma coisa e fazer outra é hipocrisia, o que é pouco eficiente e mina a credibilidade americana. O que tem feito nos últimos anos, principalmente durante a administração Bush, é dizer ao mundo: “Façam como eu digo, não façam como eu faço”.

Em vez de tentar jogos de equilíbrio com as grandes potências ascendentes e ameaçadoras, será preferível adoptar políticas externas que visem melhorar o seu relacionamento com estas. O objectivo dos Estados Unidos da América deverá ser, ter melhores relações com todas elas, do que quaisquer delas entre si.

Esta abordagem dará aos Estados Unidos o maior ponto de apoio possível com todas as partes, maximizando a sua capacidade para moldar o mundo pacífico e estável. Se as coisas não funcionarem bem, também dá aos Estados Unidos a legitimidade e a margem de manobra para passar para um papel de manutenção de equilíbrio.

Entre os académicos e os políticos internacionais, há uma teoria predominante sobre o modo e os motivos pelos quais a paz internacional dura. Essa teoria defende que o sistema mais estável é um sistema com um único poder dominante que matém a ordem. Mas nem todas as questões se prestarão a uma tal estabilização. Por outras palavras, a procura de uma solução de tipo superpotência para todos os problemas pode ser fútil e desnecessária. Certos arranjos de menor amplitude podem ter a mesma eficácia.

Um sistema internacional mais orgânico no qual os problemas sejam tratados através de uma variedade de estruturas e de soluções poderá criar o seu próprio tipo de estabilidade mais segmentada. Não será tão apelativa com uma estrutura de paz mais formal, enraizada e dirigida através de uma ou duas organizações centrais localizadas em Nova Iorque e Genebra. Mas é provável que seja uma ordem mais realista e duradoura.

A procura da ordem não é um problema exclusivamente americano. Se a ascensão dos demais também trouxer uma ascensão do orgulho nacional e de interesse próprio e da capacidade de afirmação, tem-se ai o potencial para produzir desordem. Ao mesmo tempo esta ascensão está a acontecer num mundo no qual a paz e a estabilidade proporcionam grandes retornos, dando incentivos às grandes potências para manterem o sistema estável. O problema é que estas potências em ascensão não têm um incentivo óbvio e imediato para resolver os problemas vulgares que o novo sistema gerará. Será por isso crucial a existência de um moderador, um organizador, um líder.


Washington precisa compreender que, gerar o apoio público para as suas posições sobre o mundo, é um elemento central de poder e não apenas um exercício de relações públicas. Há agora outros países, povos e grupos que têm acesso às suas próprias versões e redes de informação. Não vão calmamente aceitar a versão dos acontecimentos que lhe é enviada por terceiros. Washington vai ter de defender os seus argumentos, e de forma persuasiva. Esta tarefa tem-se tornado mais difícil, mas também se tem tornado mais vital. Num mundo cada vez mais democratizado, a longo prazo, a batalha das ideias é quase tudo.

Para pôr em prática qualquer destas estratégias específicas, os Estados Unidos têm de fazer um ajustamento muito vasto. Para recuperar o seu lugar no mundo, têm antes de recuperar a sua confiança. Há americanos demais apanhados pela retórica do medo.

Esperemos, para o bem do mundo, que a nova administração liderada por Barack Obama consiga implementar o tipo de liderança mundial que se adapte ao este novo mundo pós-americano e que, simultaneamente restitua ao povo americano a confiança perdida.


Serrone, 8 de Dezembro de 2008

domingo, 12 de Outubro de 2008

Tradição, Estado e Mercado

Adam Smith, o pai da economia tinha em todo o seu estudo a ideia muito presente, que o mercado só funcionaria correctamente dentro de um forte e estável quadro cultural que evitasse a anarquia e o despotismo. O mercado precisaria de confiança, e esta segundo ele, só existiria no meio de uma sociedade em que as regras da civilidade fossem respeitadas por todos.

Quem estudou ou simplesmente se interessa por economia, sabe perfeitamente que esta ciência assenta em dois postulados fundamentais (racionalidade e equilíbrio) e que o problema económico se resolve por mecanismos próprios, a saber: pela tradição (regras básicas de convivência em sociedade), pelo Estado (regulador) e pelo mercado (no qual se verifica a relação livre e directa dos agentes interessados estabelecendo um equilíbrio entre si). Um sistema económico baseado só em dois dos referidos mecanismos dificilmente poderia funcionar, já dizia Adam Smith (1723-1790).

Quando analisamos os acontecimentos que tiveram na génese da actual crise financeira/económica mundial, percebemos facilmente que, várias das regras básicas da ciência económica foram sistematicamente violadas e que, por isso mesmo, outro resultado não seria de esperar, senão o desenlace na actual crise. As grandes instituições financeiras americanas criaram produtos financeiros de alta rendibilidade e de grande vulnerabilidade. Numa fase de crescimento económico, concederam créditos imobiliários sobreavaliados com taxas de juros elevadas, a clientes em situação de precariedade de trabalho, sem poder económico e sem possibilidade de oferecerem garantias adicionais de cumprimento das suas obrigações contratuais.

Poder-se-á facilmente compreender que, na base da decisão dos bancos, não estiveram presentes os princípios da racionalidade e do equilíbrio. Repare-se que, uma escolha é considerada irracional se um agente, deliberada e conscientemente, entre duas alternativas possíveis, seleccionar aquela que sabe ser a que considera pior. Não sejamos ingénuos. Os líderes daquelas instituições, muitos deles formados Harvard e noutras das melhores escolas americanas, sabiam perfeitamente que os produtos financeiros que criaram, tinham apenas como objectivo a obtenção de rácios de rendibilidade imediatos, que lhe garantiam a eles próprios avultados prémios, com os quais construiriam enormes fortunas pessoais. Conheciam claramente o risco de violação dos contratos de crédito concedidos e as consequências para as suas instituições a médio e longo prazo. Por essa razão (não só por questões de financiamento), resolveram vender parte desses créditos a outras instituições nacionais e internacionais, através de fundos imobiliários, como forma de mitigarem o risco.

Neste contexto, podemos identificar outros agentes que contribuíram para a crise: - os investidores, especuladores das bolsas ("jogadores de roleta, agentes parasitários"), que enriqueceram fora do contexto da economia real. Também eles agiram em contraponto aos valores da ética, desrespeitando as regras da civilidade.

O Estado (Administração Bush), cujas decisões influenciam directa e indirectamente não só a USA mas o resto do mundo, preferiu também privilegiar o desenvolvimento de políticas económicas que visassem a obtenção de resultados no curto prazo, em detrimento dos resultados de médio e longo prazo. A Administração Bush tentou tirar aproveitamento político dos efeitos do enorme crescimento do mercado imobiliário, muito dele, fruto dos créditos "Suprime", mesmo sabendo da sua insustentabilidade e da previsível desvalorização do produto a estes associados.

Os analistas e especialistas económicos ao serviço da administração Bush, conheciam certamente os riscos e possíveis consequências do crédito mal parado e os seus efeitos contaminantes nos mercados financeiros em geral e também, a possibilidade da economia real ser afectada e os USA entrarem em recessão. Entusiasmados com o crescimento económico, cometeram um erro de cálculo de previsões da chegada da crise. Pensavam ele que os seus efeitos chegariam mais tarde, possivelmente depois das eleições presidências.
O Estado não desempenhou o seu papel de agente económico regulador e de garantia de sustentabilidade dos mercados, por hipocrisia e irresponsabilidade política. Bush teve igual a si próprio e o mundo há muito tempo não conhecia tanta anarquia e tanto despotismo, e por isso tanta desconfiança.

Todas as medidas que venham a ser implementadas para restituir a confiança, poderão até ter algum resultado imediato junto dos especuladores da bolsa, de alguns investidores e no mercado interbancário, mas duvido que, tão depressa chegue ao consumidor comum. Tenho alguma esperança que o cidadão comum finalmente tenha percebido que, é ele quem vai sofrer mais os efeitos da crise e também que, é ele quem mais vai contribuir com os seus impostos para pagar a maioria das medidas que têm sido anunciadas para tentar restabelecer a confiança aos mercados. Percebeu ainda, até onde pode chegar a ganância dos líderes das instituições financeiras e a ambição dos líderes da política, mesmo que estes últimos estejam encapuçados pelo disfarce da democracia.
Só teremos crescimento económico verdadeiro, gerador de riqueza real sustentável, quando finalmente houver mais economia e menos "finanças" e quando todos os agentes cumprirem os princípios económicos de Adam Smith. Nessa altura o mundo não poderá ser governado por gente como Bush e as principais instituições financeiras não poderão ter como gestores gente sem escrúpulos.

Serrone

sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

O que será preciso fazer mais para restabelecer a confiança nos mercados?

As medidas que o FED, o BCE, o Banco de Inglaterra e do Japão têm estado a implementar, acrescidas das acções, muitas promessas e garantias feitas pelos governos de vários países para devolver a confiança aos mercados, não tem estado a surtir o efeito esperado.

A falta de confiança é comum aos mercados monetários, seja este em dólares, euros ou asiáticos. Dizem alguns especialistas que as medidas que têm surgido são bem-vindas e são necessárias para assegurar a segurança do sistema financeiro. Mas estes mesmos especialistas, também esperavam que os resultados já tivessem começado a acontecer. Como se sabe até hoje ao meio dia, a inversão não aconteceu, antes pelo contrário, os mercados bolsistas mundiais continuam em forte queda e as taxas de juro de referência interbancária (como ex. a Euribor), teimam em não descer.

O espectro da recessão económica mundial e a falência de várias instituições financeiras europeias e o profundo receio de que muitas outras poderão esconder problemas, congelaram praticamente as operações no mercado interbancário, fazem disparar a taxa de juro e agravam a desconfiança.

Foram muitos anos sem uma entidade reguladora e sem redes e sistemas de segurança nos mercados financeiros. A ambição sem limites de alguns gestores de topo de grandes grupos financeiros agindo com a cumplicidade dos governantes, levaram os mercados as extremos. Depois, a Administração Bush demorou demasiado tempo a reagir aos efeitos do Suprime e a aprovar o Plano Paulson. Para além disso as acções concertadas das grandes potências económicas e financeiras têm tardado a efectivar-se.

Hoje os G7 vão reunir-se de emergência para tentar encontrar uma solução. O que terão eles que fazer para parar o pânico?

Não sei ao certo, mas esforços não devem ser poupados. É preciso manter a economia real em funcionamento com a menor afectação possível, devolvendo de imediato a confiança aos mercados.


A base do sistema financeiro, os bancos, têm que continuar activos e as relações interbancárias terão que restabelecer-se rápidamente, devendo ser estas as principais preocupações dos governos dos diversos países. O modelo de intervenção adoptado na Inglaterra parece-me muito mais ajustado a gerar confiança do que a solução adoptada nos USA (Plano Poulson).

Seja como for, para além destas medidas para restabelecer a confiança, para recuperar a economia, vão ser precisos impostos mais baixos para as empresas, sendo que, para o efeito, as políticas orçamentais dos estados terão que ser mais flexíveis. Os investimentos não poderão parar e o dinheiro terá que continuar a circular para que as empresas não asfixiem. Para que tal aconteça são precisos juros mais baixos pelo que, os bancos centrais têm que dar já um sinal forte nesse sentido e depois… vamos ver...

quinta-feira, 9 de Outubro de 2008

Que pena, não podermos dar aos nossos filhos o que herdámos, o fascínio de um dia poderem ficar ricos!

Ontem almocei com um amigo de longa data que tem mais ou menos a mesma idade que eu. Costumamos falar de actualidades e ontem, inevitavelmente, o tema foi a crise.

Revivemos o nosso mundo de há trinta anos atrás. Nessa altura éramos adolescentes sonhadores. Aspirávamos um dia ser ricos, sendo que, para nós, o significado de riqueza passava essencialmente pelo acesso a um padrão de vida mais elevado que o do meio onde crescíamos.
Pois bem, decorreram trinta anos e o balanço não podia ser mais positivo: os nossos sonhos foram não só realizados, como também foram largamente superados. Não há comparação possível entre o que é hoje o nosso padrão de vida e o das pessoas mais ricas da nossa região, há trinta anos atrás.

Desde essa altura, até agora, o mundo tem estado em acelerada mudança: transformações políticas e ideológicas profundas; a globalização; o mercado único europeu e a moeda única; o desenvolvimento tecnológico e a liberalização económica, todos estes factores foram transformando gradual e profundamente o nosso modo de vida, quase sem darmos por isso.

As pessoas perderam a noção do valor e do preço das coisas. As modernas estratégias de gestão e de marketing, potenciadas com o desenvolvimento dos meios audiovisuais e o acesso fácil ao crédito barato, permitiram ao comum dos mortais, ter a ilusão de que poderia adquirir mais aquele bem ou serviço. Nos últimos anos, a generalidade da classe média ocidental, endividou-se recorrendo a créditos "baratos", para comprar bens tangíveis de toda a natureza, sempre com a ilusão de que, com mais aquela compra, iriam viver melhor. Os consumos cresciam sempre e o endividamento das famílias aumentava quase na mesma proporção. Até há muito pouco tempo, poucos eram os que tinham a verdadeira percepção que o crescimento económico do mundo ocidental se estava a alicerçar em "raízes podres", prestes a ruir a qualquer momento.

O "suprime" apenas fez transbordar a "água do copo", que já se encontrava "quase cheio", com uma infinidade de créditos concedidos a pessoas que a ele recorreram, sem terem à partida a possibilidade de os pagar de forma sustentada.

E agora, o que nos irá acontecer? Será difícil prever qual vai ser o nosso futuro, mas nenhum de nós terá grandes dúvidas: - a forma de viver a que nos habituámos nos últimos trinta anos, vai mudar certamente. O crescimento económico baseado mais nas finanças do que na economia, tem os dias contados.

Que pena, não podermos dar aos nossos filhos, o que herdámos, o fascínio de um dia poderem ficar ricos!

Serrone

sábado, 16 de Agosto de 2008

A verdadeira razão do conflito na Geórgia

Interesses geoestratégicos e a riqueza do solo na região do Cáucaso, levaram o gigante adormecido a recorrer aos velhos métodos de demonstração de poder da antiga URSS e a esquecer os tratados internacionais.

É certo que o presidente Mikhail Saakachvili da Geórgia, ao avançar com a operação contra os separatistas da Ossétia do Sul, cometeu um erro de cálculo, talvez induzido quem sabe, propositadamente por Moscovo, que lhe teria dado a entender que não interviria.


A Rússia que esperava uma oportunidade para mostrar ao mundo que ainda tem força militar e poder para restabelecer uma “esfera de influência” há muito perdida sobre a região e controlar os seus recursos energéticos e estratégicos, não deixou de aproveitar a ingenuidade de Saakachvili.


A URSS desmembrou-se em 1991 com a independência das suas 15 repúblicas e, desde essa data, Moscovo tem sido afrontada pela humilhação geopolítica, com muitos dos antigos membros a pedirem a entrada na NATO e na União Europeia. Nos últimos 17 anos a área de influência euro-atlântica tem aumentado significativamente. Toda a Europa Central, Oriental e os Balcãs já fazem parte, ou estão prestes a tornarem-se membros da Nato e da União Europeia. Por isso, Moscovo não vê com bons olhos a possível entrada na NATO da Ucrânia e da Geórgia e a colocação de um escudo antimíssil na Polónia. Tanto mais que, no território da Ucrânia, para além de se encontra uma parte do poder bélico que pertencia à ex. URSS, também se situa a sua principal base naval, o seu grande porto com acesso directo ao Mar Negro e ao Mediterrâneo. A Geórgia é uma rota natural do trânsito de combustíveis, sendo que, todos os projectos do ocidente e da própria Rússia prevêem os traçados de oleodutos e gasodutos no seu território, a ligar o Azerbaijão à Turquia, drenando os recursos energéticos do Cáspio.

Tentativa de aproximação da Geórgia ao ocidente e sinais claros do conflito de interesses do ocidente com a Rússia


Em 2006 a Geórgia assinou o Plano de Acção de Vizinhança Europeia com a União Europeia e a adesão à Nato é uma prioridade deste aliado dos Estados Unidos. O presidente Mikhail Saakashvili chegou ao poder em 2004 conseguindo uma esmagadora maioria de 96% dos votos, persuadindo os eleitores de que iria transformar a Geórgia num país próspero ocidentalizado, no qual não haveria lugar para a corrupção e a pobreza, considerados os dois maiores flagelos sociais pelas suas populações.


No Washington Post do dia 14 de Agosto, Ronald Asmus e Richard Holbrooke, nomes sobejamente conhecidos da anterior administração americana, da era Clinton, afirmaram que "O objectivo da Rússia não é simplesmente, como clama, restaurar o statu-quo na Ossétia do Sul. Quer a mudança de regime na Geórgia". Ou seja, visa derrubar o regime pró-americano de Saakachvili. Temos de conter a pressão da Rússia sobre os seus vizinhos, especialmente na Ucrânia, muito provavelmente o próximo alvo dos esforços de Moscovo para criar uma nova esfera de hegemonia". Esta afirmação revela claramente que as preocupações da América relativamente ao Cáucaso já vinham detrás e mostra que os esforços desenvolvidos nos últimos anos de expansão de influência a leste, tinham também o objectivo de neutralizar e isolar a Rússia.


Por outro lado sabemos que eles não estão enganados, basta recordar o que afirmou Stanislav Belkovski, conselheiro de Vladimir Putin, quando decorriam as eleições ucranianas de 2004.: "A única maneira de prosperarmos no século XXI é restaurar o nosso domínio no espaço pós-soviético". Esta é uma obsessão da doutrina estratégica russa desde os primeiros tempo do consulado de Boris Ieltsin.


Com a acção militar no Cáucaso, a Rússia confirmou ao mundo de forma inequívoca o arranque da sua "estratégia de cerco" que consiste em restabelecer uma “esfera de influência” englobando pelo menos a Ucrânia, a Moldávia e a Geórgia. Aparentemente esta primeira acção está a ser a conseguida com êxito e tudo indica que dificilmente a Geórgia irá recuperar a Ossética do Sul e a Abhkázia. A Geórgia mais instável e com as forças militares fortemente atingidas com o actual conflito, seria menos apetecida aos interesses da NATO.


Os Estados Unidos, reféns da ajuda da Rússia na solução do programa nuclear iraniano não tiveram meios nem vontade política para proteger um aliado e a sua credibilidade regional foi largamente afectada. Até mais ver a Rússia está a conseguir os seus objectivos e está a sair vencedora. Os próximos tempos vão ser decisivos para se saber com que armas se vai afinal fazer esta guerra e quem virão a ser os vencidos e os vencedores.


Aparentemente os Estados Unidos no imediato, para além de se desmultiplicarem em contactos diplomáticos e em intervenções políticas mais ou menos relevantes, irão fazer braço de ferro com o seu rival, começando por fechar o acordo com a Polónia de instalação do sistema antimíssil e irão acelerar a entrada da Ucrânia e eventualmente da Geórgia na NATO. Vão tentar não cometer erros estratégicos, para mostrarem aos povos da região que são os aliados certos e que a Rússia é um país isolado sem aliados.


Seja qual for o desenrolar e o desfecho, para já, parece não haver dúvidas, o mundo está ainda mais instável e aumentaram as incertezas de manutenção da paz, fazendo ressuscitar velhas angústias do tempo da guerra fria. O gigante adormecido, afinal esteva sorrateiramente a preparar-se e a aguardar a sua oportunidade para contra-atacar e soube escolher o seu momento, mostrando as “garras” orgulhosamente de modo a convencer os rivais de quem manda no território, é ele.

sábado, 9 de Agosto de 2008

Dia 9 de Agosto de 2007, o dia em que a crise chegou à Europa

A noção de tempo datada em dias, meses anos, décadas e séculos é puramente cronológica e foi definida pelo homem, muito milhões de anos depois do aparecimento de vida na terra. Talvez por isso, nunca fui pessoa dada a dar muita importância às datas. O que importa verdadeiramente é que as ocorrências e os respectivos registos vão ficando impressos na história, podendo em alguns casos, projectar-se sem apelo nem agrave no nosso futuro comum.

Não poderia deixar passar o dia de hoje, precisamente um ano decorrido desde que a crise financeira chegou à Europa. Nessa data, o BPN Paribas, o maior banco francês, congelou três fundos de investimento fortemente ligados ao mercado imobiliário dos Estados Unidos. Nesse mesmo dia o Banco Central Europeu injectou 95 mil milhões de euros numa tentativa de repor a liquidez.

A que se devia tão grande turbulência nos mercados financeiros europeus?

Um dia antes, havia eclodido o colapso do crédito hipotecário de alto risco na maior potência económica mundial, denominado a "Crise Suprime".

Um ano decorrido, interessa registar resumidamente o balanço dos efeitos da crise do “Suprime” no sector financeiro, precisamente o sector que esteve na origem da crise:

“ Os bancos de todo o mundo cortaram cerca de 100.000 postos de trabalho. As perdas assumidas até agora pela banca ascendem a 320.000 mil milhões de euros (495 mil milhões de dólares), dos quais 45% verificaram-se na Europa.” Mas o FMI assegura que as perdas totais irão ascender a um bilião de dólares. Isto quer dizer que, segundo o FMI, as taxas de juro que acabaram de atingir máximos históricos, irão levar cerca de uma ano e meio a atingir o máximo de magnitude no final de 2009 em diante. A concessão de crédito às empresas e às famílias foi largamente dificultado e é cada vez mais caro, o que só por si, afecta directamente o investimento e o desenvolvimento económico.

A Citigroup e Merrill são as instituições mais afectadas pela crise do “Suprime”. Juntos perderam 69 mil milhões de Euros desde Agosto de 2007. Na Europa e o Banco Suíço UBS foi que mais perdeu, cerca de 25 Milhões de Euros.

Hoje as perspectivas para o futuro não são nada animadoras. Pode-se esperar a continuação da subida das taxas de juro na zona euro, a continuação de falta de liquidez nos mercados de crédito, spreads demasiado elevados, continuada redução dos lucros da banca, continuado agravamento da inflação, dificuldades de acesso ao crédito de empresas e particulares, redução da actividade económica e consequente aumento do desemprego.
Serrone

sexta-feira, 1 de Agosto de 2008

Globalização, "Guilty or not Guilty?"

No dia 26 de Maio deste ano deixei em aberto algumas questões sobre os eventuais efeitos da globalização na actual crise mundial. Desde essa data, tenho tentado formar melhor a minha opinião, lendo livros e artigos dos mais prestigiados especialistas internacionais, tais como Paul Samuelson, autor do livro Economia da Era Pós-guerra; Martin Wolf, autor do livro “Por Que Funciona a Globalização e colunista do Financial Times; Paul Krugman, teórico do comércio internancional; Larry Summers, chefe do Tesouro dos EUA; e o anti-globalização e Prémio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, entre outros.

Confesso que, depois de muito ler, fiquei com mais incertezas do que tinha antes. Os contornos macroeconómicos, sócio culturais, ambientais, geoestratégicos e políticos existentes, são de uma complexidade sem limites e os especialistas entendem-nos e escrevem sobre eles, de forma diversa e por vezes antagónica, mas sempre argumentando persuasivamente as suas ideias.

Mas, quero-lhe dizer caro leitor que, na sua essência, as minhas convicções liberais não foram minimamente afectadas. Poderei mesmo dizer que, estas acabaram por sair reforçadas, pois acredito que só a liberalização alargada dos mercados, conjugada com a democratização do mundo e das suas instituições mais importantes, poderão trazer crescimento económico sustentável a cada vez mais regiões e mais bem-estar às suas populações.

A globalização pode continuar a funcionar como factor de crescimento em tempo de crise, apesar de, na base desta mesma crise, ter estado a globalização. À partida parece existir contradição no que acabei de referir, mas asseguro que não, senão vejamos:

O problema não está na globalização, mas sim na falta de novas instituições e de mecanismos que tornem a globalização de hoje mais eficaz, mais sustentável e mais justa. No dia 5 de Junho, neste espaço escrevi como se poderia travar a especulação dos mercados. Pois bem é daquele tipo de mecanismos controladores e reguladores a que me refiro.

O mundo precisa de mercados globais assentes em bases formais mais fortes e mais consensuais. Não existe uma autoridade anti-monopólio mundial, não há uma entidade reguladora dos mercados, as redes e sistemas de segurança mundiais são inexistentes e há ainda muita falta de democracia por esse mundo fora. Terão que se criar novas regras para a globalização continuar a ser a alavanca de diminuição da pobreza dos povos de todo o planeta. Estas regras deverão estar assentes em bases políticas fortes, em instituições apoiadas pelas elites mundiais mas simultaneamente e também com legitimidade popular. Deverão ser criados mecanismos de regulação e de compensação económica entre zonas do mundo.

Claro que, neste enquadramento, não poderia deixar de me referir às rivalidades internacionais. Os problemas de natureza geopolítica latentes são uma grande ameaça à globalização. Mas, mesmo assim acho que, actualmente, estamos numa situação muito menos complicada do que esteve o mundo na altura da grande recessão da década de 30. Recordo que nessa década, o crescimento do comunismo e do fascismo fragmentavam o globo. Hoje, em vez de rotura entre as maiores potências mundiais, enfrentamos uma ameaça alternativa – o mega - terrorismo. Neste âmbito, a globalização pode funcionar como uma arma de ataque e simultaneamente defensiva, contra o terrorismo. Como? Permitindo aos países interagirem potenciando o seu combate generalizado em toda a parte do planeta, e por outro lado, porque o desenvolvimento gerado trará o bem-estar das populações a cada vez áreas mais alargadas do globo, agindo deste modo dissuasivamente ao seu espalhamento.

Os interesses proteccionistas dos estados, manifestados através da atribuição de subsídios a sectores da indústria e da agricultura, a limitação do mercado de exportações, o apoio camuflado a grandes grupos económicos, tantas vezes também eles monopolistas, são uma das maiores ameaças à globalização e ao crescimento económico sustentável ao nível do planeta. Há que criar regras limitadoras deste tipo de poder camuflado que gera desajustamentos económicos de larga escala, desvirtuando as regras de mercado. Também deverão ser criados mecanismos que prevejam, controlem e que produzam resultados que possibilitem que os seus efeitos, ao produzirem-se sejam drásticamente atenuados e não se repliquem no mercado global.

Será do interesse de todos os estados, como dos seus cidadãos, participar em regimes e instituições baseadas em tratados internacionais que forneçam bens públicos globais, incluindo mercados abertos, protecção ambiental, saúde e segurança internacional. A necessidade de defesa da integração económica internacional, juntamente com defesas finanças públicas sãs, estabilidade macroeconómica, estabilidade financeira, investimentos adequados na educação, saúde e infra-estruturas, encorajamento para a inovação e sobretudo, mais e melhores Estados de Direito.

Será necessário criar um credor global de último recurso e os países e os mercados devem aprender com os seus próprios erros, sendo que a comunidade global deverá ter capacidade para intervir onde os Estados falharam por completo.
Serrone

quinta-feira, 17 de Julho de 2008

Recessão à vista na Zona Euro



Países da Europa em risco de recessão económica:


-A Dinamarca entrou em recessão técnica no 1.º trimestre de 2008.
-A Espanha e a Irlanda são dois países em abrandamento económico muito acelerado devido à crise do mercado imobiliário e ao aumento das taxas de juro, na sequência do suprime.
-A Grécia e Portugal são das economias da zona Euro mais endividadas e dependentes do financiamento estrangeiro, sendo que, no caso de Portugal, há a agravante de ser um país pequeno, periférico e dependente do comércio externo dos seus parceiros que, também eles estão em risco.
Debaixo do espectro da recessão, as economias europeias têm sofrido nos últimos meses um acentuado abrandamento económico. A subida das taxas de juro por um lado e por outro o fortalecimento progressivo da moeda única europeia, estão a diminuir a competitividade das exportações dos produtos produzidos na União Europeia.


Nota: Os economistas falam em recessão quando o crescimento económico (crescimento real do PIB) é negativo em dois trimestres consecutivos.


A pressão inflacionista provocada pelo aumento dos preços dos combustíveis e do preço dos alimentos alargar-se-á aos salários e tal provocará a tendência de se continuarem a aumentar as taxas de juro. Fruto de toda esta instabilidade, o investimento tenderá também ele a diminuir de forma acelerada nos próximos meses. Estaremos nessa altura prestes a assistir ao fenómeno económico que os especialistas denominam de “estaglação” (inflação elevada combinada com uma estagnação do crescimento económico).

Esta radiografia actual e sumária da economia da Europa, como sabemos, resultou em grande parte da “falência” de um sistema económico mundial, demasiado dependente de mercados puramente financeiros que, uma vez em crise, abriram chagas profundas na procura e gestão dos recursos energéticos do planeta e revelaram o resultado de políticas erradas durante décadas, no que se refere à produção e distribuição alimentar aos povos do planeta.


De todo o lado surgem incertezas quanto ao futuro porque todos sabem que estão reunidos um conjunto de factores ímpares geradores da actual crise mundial, de difícil previsão quanto à sua evolução.
Porém, na mente de todos nós pairam algumas certezas:
-a terceira crise petrolífera é definitiva, pois não haverá margem para existir mais nenhuma. Outras fontes energéticas terão que substituir no médio prazo (dez anos) para que o velho petróleo perca a sua hegemonia.
-os mercados financeiros terão que estar regulamentados e controlados com regras precisas que limitem riscos/ganhos excepcionais e dotados com procedimentos punitivos para os prevaricadores.
-precisa-se de uma nova geração de políticos reformistas e humanistas a governar o mundo, porque a velha classe política populista e tecnocrata já deu mostras do que é capaz levando a humanidade à beira do abismo.

quinta-feira, 5 de Junho de 2008

Travar a especulação


A especulação internacional financeira “altera” de forma propositada as regras de mercado de modo a criar altos rendimentos aos investidores. Embora, sempre tenham ocorrido práticas especulativas nos mercados internacionais, temos assistido recentemente a um crescimento sem controlo de investimentos de capitais em matérias-primas, em detrimentos de investimentos mais tradicionais, designadamente em fundos imobiliários.

Procuram-se obter avultados e sucessivos lucros financeiros no mais curto espaço de tempo, tirando-se o maior partido possível da inflação gerada.
Compra-se o produto a um preço dito “de mercado” e, depois não se tem que esperar muito, porque o ciclo inflacionário em curso leva à procura desenfreada e a novas subidas do preço. Basta por isso escolher o momento da venda que for mais lucrativo e que permita disponibilizar novos recursos financeiros para uma nova aplicação.


O que acabo de referir está a passar-se a nível global com o petróleo, com o arroz e com o milho. Grandes investidores de todo o mundo deliberadamente e por ganância, estão a investir avultadas somas nestas matérias-primas e a provocar a turbulência nos mercados, desvirtuando as leis da oferta e da procura. Muitos deles são precisamente os fundos que perderam fortunas com a crise do suprime e que agora querem recuperar das perdas.


Só que estes produtos não são prédios mal alicerçados em dólares em crescente instabilidade. São produtos de uma importância estratégica inquestionável para o mundo, sendo que, os cereais, tais como o arroz e o milho se constituem como a base da alimentação daqueles que vivem na pobreza extrema. Também a subida do preço do petróleo está a levar as economias de todos o mundo a um abrandamento e a uma crise económica global. Quando isto acontece, nos países em desenvolvimento, ou mesmo ricos, são as populações mais pobres e com menos recursos que sofrem mais.

Será tudo isto uma consequência da liberalização dos mercados? Claro que não. Lamento desiludir quem porventura estaria à espera de uma minha manifestação antiliberal.

Mais uma vez, o problema não está na base das políticas macroeconómicas, mas sim na falta de vontade e de capacidade dos governos dos países mais poderosos em actuar atempadamente nos mercados. Muitos dirão que será demasiado complicado agir, ou que será impossível fazê-lo. Resignam-se à má sorte, adoptam políticas internas desajustadas que até podem agravar a crise, ou simplesmente ficam à espera que aconteça um milagre que inverta a tendência do ciclo económico. Outros ainda irão aproveitar a ocasião para querer ressuscitar e justificar ideias de totalitarismos e politicas de esquerda socialista, há muito falidas.
Meus amigos, a palavra certa, a "ideia chave" que poderá travar a especulação é regular. Regular os mercados e punir severamente os infractores. Regular não é intervir para alterar as leis de mercado. É precisamente o contrário, intervir para fazer cumprir as leis de mercado, para que estes possam funcionar livremente sem o espectro da especulação. Comprará quem precisa e venderá quem tem para vender matérias-primas de primeira necessidade para o mundo.

Se os poderosos deste planeta, os G7 e todas as organizações internacionais com responsabilidades estratégicas no equilibrío económico e social das nações, FMI, Nações Unidas e outras, não tomarem a iniciativa de REGULAR e PUNIR os infractores, restabelecendo a ordem económica/financeira mundial, iremos assistir a uma crise global sem precedentes, porque a globalização que ajuda a distribuir riqueza, mais facilmente e rápidamente irá contribuir para o aumento da pobreza e da desagregação e colapso do tecido social já débil.

Serrone

segunda-feira, 26 de Maio de 2008

Crise....De quem é a culpa?

Sempre acreditei na economia global de mercado. Não conheço alternativa aos regimes democráticos e acredito que o mercado pode não ser uma condição suficiente para a existência de democracia, mas é, no mínimo, uma condição necessária.

Assistimos no final do século passado à falência dos regimes socialistas que assentavam numa economia planeada e na propriedade estatal. Temos assistido com frequência a insucessos económicos, sempre que os estados adoptam uma política demasiado interventiva na economia, fechando esta, ou simplesmente limitando a sua livre e regular actividade.


Em contraponto temos verificado o sucesso das políticas económicas adoptadas pelas democracias liberais, baseadas nos mercados abertos e de livre concorrência. As maiores potências económicas do mundo actual, os Estados Unidos e a União Europeia, são a prova e constituem-se como bons exemplos do que estou a falar.


O efeito globalização é contrário à fragmentação dos mercados. Ele actua ao contrário da lógica imposta pela actual divisão geopolítica dos estados e, nessa medida, esperava-se que o fenómeno da globalização também permitisse às economias mais débeis, colher os benefícios provenientes do estabelecimento de relações com as economias mais desenvolvidas. Na verdade, sempre que acontece o crescimento económico das maiores economias, verifica-se também um efeito de arrastamento positivo na generalidade das economias dos países em desenvolvimento.


Anne Kruger, directora adjunta do Fundo Monetário Internacional, em 2000 definiu a globalização como um “fenómeno através do qual os agentes económicos, onde quer que estejam no mundo, são muito mais afectados por eventos em outra parte do mundo” do que antes.


A questão é que essa afectação tanto pode ser positiva como pode ser negativa. No tempo de crescimento será de esperar que a afectação seja positiva. O contrário parece estar acontecer, agora que as economias mais fortes abrandam ou entram em recessão. A economia americana está tecnicamente em recessão, embora por razões estritamente políticas interna e de protecção dos próprios mercados, tal ainda não tenha sido confirmado pela administração Bush. Mas, a verdade é que os efeitos das fracas prestações económicas dos Estados Unidos da América são sentidos um pouco por todo o mundo. Os mercados internacionais agem com incerteza e desconfiança às suas fracas performances e à desvalorização do dólar, provocando uma onda de contenção no investimento.


Os mercados procuram adaptar-se a uma nova conjuntura internacional. Os recursos monetários disponíveis passaram a ser preferencialmente investidos, em produtos facilmente transaccionáveis e de menor risco, também de rápida valorização, tais como bens alimentares e petróleo.


Neste fórum já abordámos a problemática do efeito da especulação nos bens atrás referidos. Já vimos aqui em que medida o equilíbrio da oferta e da procura, tem sido afectado pelo rápido crescimento das economias emergentes e também já nos referimos ao impacto social e político dai resultante.


Todos ouvimos diariamente na comunicação social novas notícias de existência de problemas humanitários que se vão agravando um pouco por todo o mundo, devido à crise. Mesmo nos países mais desenvolvidos, assiste-se a um crescimento de problemas sociais graves em famílias com menor recursos ou pertencentes à classe média com alto grau de endividamento.
Ninguém ainda sabe ou pode prever no tempo o fim deste ciclo e em que medida é que a crise se pode agravar e alastrar.


Mas então o que é que está a falhar? Será que a economia de mercado não consegue responder aos novos desafios? O problema estará na democracia liberal ou na social-democracia? Será a globalização responsável pela crise? O que pode ser feito para atenuar os efeitos da crise? Como devem os estados responder aos novos desafios da humanidade?


Com o “correr da pena”, apetecia-me continuar a desenvolver este tema, procurando dar já as respostas às perguntas que deixei ficar. Mas, propositadamente vou aguardar, para permitir a si, caro leitor, dispor de tempo para poder dar a sua opinião. Certamente que este espaço ficará enriquecido com o debate de ideias, mesmo que contraditórias.
Serrone

sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Efeitos do Aquecimento do Planeta:

O ser humano está a influenciar o clima através de crescentes emissões de gases de estufa e o crescente aquecimento do planeta está a ter um impacto nos sistemas físicos e biológicos à escala global.

Pela importância e por ser extraordinariamente relevante, vou transcrever na íntegra um artigo do jornal diário “O Público”.

15.05.2008, Ana Gerschenfeld
Um pouco por todo o mundo, sistemas físicos e biológicos estão a ser substancialmente afectados pela subida das temperaturas provocada pelas actividades humanas, conclui hoje um mega-estudo na Nature.

A conclusão não é inesperada: em 2007, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas já tinha declarado que grande parte do aquecimento global se devia muito provavelmente ao aumento das emissões de gases de estufa pelos homens - e que as consequentes alterações climáticas iriam provavelmente ter efeitos visíveis nos ecossistemas do planeta. Até agora, os inúmeros estudos realizados debruçavam-se sobre fenómenos isolados e a escalas bastante locais. O novo estudo vai mais longe pois, pela primeira vez, reúne num único "meta-estudo" cerca de 30 mil conjuntos de dados, fornecendo uma visão global do que está a acontecer.
Cynthia Rozenweig, do Instituto da Terra da Columbia University, e uma equipa internacional de investigadores, analisaram os estudos publicados, a partir de 1970, sobre um total de 829 sistemas físicos e cerca de 28 mil sistemas animais e vegetais. Olharam para coisas como a diminuição dos glaciares em todos os continentes; a fusão do permafrost; o degelo precoce dos rios na Primavera ou o aquecimento das massas de água. Do lado dos seres vivos, os efeitos incluíam o florescimento precoce das plantas, as deslocações de espécies vegetais para latitudes e altitudes mais elevadas no Hemisfério Norte, as mudanças nos padrões de migração das aves na Europa, América do Norte e Austrália; e a evolução do plâncton e dos peixes nos oceanos, que de espécies de águas frias estão a transformar-se em espécies adaptadas a águas mais quentes.
Resultado: nos sistemas físicos, 95 por cento das mudanças observadas são compatíveis com o que seria de prever num cenário de aquecimento global. E nos sistemas biológicos, o mesmo vale para 90 por cento das mudanças observadas. "O ser humano está a influenciar o clima através de crescentes emissões de gases de estufa", escreve Rozenweig num comunicado da sua universidade, "e o crescente aquecimento do planeta está a ter um impacto nos sistemas físicos e biológicos à escala global"
Os cientistas constataram que as alterações eram mais marcadas na América do Norte, Ásia e Europa, algo que, afirmam, acontece principalmente porque a grande maioria dos estudos foram realizados nessas regiões. Mas tudo indica que em regiões como a América do Sul, Austrália e África, apesar de as mudanças estarem menos documentadas, a realidade não é diferente. Os autores salientam ainda que os efeitos do aquecimento global ultrapassam de longe outros efeitos, mais modestos, da actividade humana, como a desflorestação e outras alterações na utilização dos solos.
90% das mudanças observadas nos sistemas biológicos são compatíveis com o aquecimento global, revela o estudo.

Texto públicado no Jornal o público do dia 15 de Maio de 2008

sexta-feira, 9 de Maio de 2008

Com que direito?

1,5 milhões de pessoas terão sido afectadas pelo ciclone Nargis que atingiu Myamar, o mais devastador de toda a região desde 1991, quando perderam a vida 143.000 pessoas no Bangladesh.

Myamar (antiga Birmânia) é governada por uma ditadura militar xenófoba e autárcica desde 1962, após um golpe de estado que vitimizou cerca de 3000 pessoas.

A Birmânia possui no seu território o importante gasoduto birmanês de Yadana e é precisamente este e os projectos ligados ao gás que têm mantido o regime militar no poder, possibilitando a compra de armas e munições e o pagamento dos seus soldados.

Os monges budistas, os principais opositores internos ao regime, são massacrados e presos perante a passividade dos poderosos do mundo. A isto não será alheio certamente o facto de o gasoduto ser controlado pelas gigantes multinacionais petrolíferas norte-americana e francesa, respectivamente Chevron e Total.

No jornal Público de hoje, é referido em primeira página que o “governo Birmanez esta a pôr entraves ao envio de ajuda humanitária internacional.” e que os “militares mostram a sua verdadeira face, o desprezo pelo sofrimento do povo”.

Mas que mundo é este que teima em respeitar a legitimidade de um governo auto proclamado, que mata milhares de seres humanos, que oprime e maltrata outros milhares, que os escraviza (na construção da gasoduto) e que os prende sem culpa formada apenas porque manifestaram a sua oposição à ditadura?

Agora, depois de um cataclismo, 1,5 milhões de pessoas necessitam de ajuda imediata, a comunidade internacional cria uma onda de solidariedade e não pode chegar às vítimas com a celeridade precisa, porque os ditadores colocam entraves?

Que mundo é este onde vivemos? Basta! Temos todos a obrigação de dizer, basta!
O mundo não irá sobreviver se o poder exercido pelos homens continuar a ser manipulado e condicionado por outros interesses que não coloquem os seus povos e a humanidade no seu todo em primeiro lugar.

quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Este mundo louco que os homens têm construido

Vivemos num mundo cada vez mais global e conturbado, em que os mercados reagem facilmente às leis da natureza e em que os homens vão alterando a natureza para satisfazer as leis dos mercados. No entanto, natureza e mercados, parecem estar cada vez mais no fio da navalha.
Já ninguém tem dúvidas que se estão a verificar alterações climáticas importantes devido ao aquecimento global provocado pelo agravamento do efeito de estufa, causado entre outros factores pela queima progressiva ao longo de décadas, de petróleo, carvão e gás. Segundo cientistas da ONU, não há dúvidas que a humanidade têm contribuído para o aquecimento global, não se conhecendo ainda exactamente em que proporção.

O que se sabe e se perspectiva é que as alterações climáticas para o século 21, irão causar futuras mudanças irreversíveis e em larga escala, nos sistemas do planeta, resultando em impactos de escala continental e global. Quero dizer que é previsível a ocorrência de cataclismos “naturais” cada vez mais frequentes.

No princípio deste ano, a Organização de Alimentação e Agricultura estimava que Myanmar exportasse em 2008, 600 mil toneladas de arroz. Entretanto, como se sabe, Myanmar foi atingido por um ciclone que destruiu as suas plantações e matou cerca de 60 mil pessoas (número ainda não confirmado). Devido ao cataclismo as exportações do país poderão ser afectadas e poderá ser necessário recorrer à importação daquele cereal.

"Os estragos do ciclone em Myanmar vão reduzir a oferta de arroz, especialmente na Ásia, afirmou o analista Takaki Shigemoto da Okachi & Co. citado pela Bloomberg.” “A verificar-se esta ocorrência, a oferta poderá ser insuficiente para a procura mundial, o que impulsionará os preços do arroz, elevando os riscos de fome para mil milhões de asiáticos, afirmou Haruhiko Kuroda, presidente do Banco de Desenvolvimento Asiático na passada segunda feira.”

Este cenário de especulação motivou já, pelo quarto dia consecutivo, que o arroz fosse negociado em alta.

Infelizmente, este é um bom exemplo do que poderá vir a acontecer com mais frequência no futuro próximo, a que não será certamente alheio:
-Os desequilíbrios económicos e sociais alimentados durante séculos por conveniência dos poderosos do mundo.
-O desenvolvimento económico dos estados ocidentais efectuado sem regras e sem respeito pelas leis da natureza.
-Mais recentemente o crescimento económico galopante das economias emergentes que se está a executar com os mesmos erros cometidos pelos povos ocidentais.

O homem com a sua ganância desmesurada, cego e insensível à natureza, à miséria, à pobreza extrema e precariedade social, conduzirá o mundo a um ponto sem retorno cada vez mais próximo e previsível.

segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Até quando pode durar a crise do petróleo?

A crescente procura deste produto, será acompanhada pelos produtores?

Segundo a FMI a produção dos países da OPEP deverá manter-se, enquanto os países produtores não pertencente a esta organização, aumentará entre 0,8-1 milhões de barris diários, o que será insuficiente para satisfazer o aumento da procura que em 2008 atingirá os 1,8 milhões de barris diários.

Por outro lado, ninguém tem dúvidas que as incertezas geopolíticas vão continuar no futuro próximo. Os recentes ataques de rebeldes às instalações de exploração de petróleo da Shell na Nigéria, fez com que este país começasse a produzir abaixo das suas capacidades, o que se deverá manter nos próximos meses. O Irão, um dos maiores produtores de petróleo do mundo, acabou de anunciar que vai continuar com o seu programa nuclear. Uma decisão que inevitavelmente irá provocar mais incertezas no mercado e favorecer a especulação.

Todas as conturbações geopolíticas arrefecem os ímpetos dos investidores para incrementarem os seus investimentos nessas regiões do mundo, limitando deste modo a possibilidade de aumentar no futuro próximo a oferta, para poder vir a equilibrar a procura crescente.

Outros factores que têm estado na formação e manutenção da crise actual, deverão manter-se nos tempos mais próximos, tal como a depreciação do dólar americano e os seus efeitos na lei da oferta e da procura. Vejamos como funciona:
O dólar mais barato implica menor receita para os produtores, uma vez que a maior parte das transacções fazem-se com a utilização desta moeda. Para minimizarem a redução do lucro, estes acabam por ir aumentando os preços de venda do crude. Do lado da procura, o dólar mais barato favorece o aumento da procura, por parte daqueles que possuem outras moedas que se ncontram valorizadas em relação ao dólar.

O FMI estima que o preço do petróleo em 2009 e 2010 irá aproximar-se de valores próximos dos 100 dólares, mas abaixo deste patamar de custo. Esta situação só deverá acontecer dizem os analistas se o arrefecimento da economia americana se transmitir às economias emergentes. Estamos a falar na possibilidade de um abrandamento com algum significado das maiores economias à escala planetária.

A ser assim, facto que até se compreende, será para dizer, entre um cenário e outro, venha o diabo e escolha.

domingo, 4 de Maio de 2008

A crise do petróleo


Perceber a crise através do nosso bolso:


Há um ano atrás encher um depósito com 50 litros de gasóleo era mais barato 13,15€ (menos 24,795) e encher um depósito com 50 litros de gasolina sem chumbo 95 era mais barato 5,75€ (menos 8,62%).
No dia 30 de Abril, o preço dos combustíveis atingiu um nível recorde no nosso país, com gasolina a ser vendida a 1,449€ e o gasóleo a chegar aos 1,324€.
A cotação de referência para Portugal da gasolina nos mercados internacionais subiu 26,7% nos últimos 12 meses em dólares, e apenas 10,5% em euros. Mas na verdade, o preço só subiu 8,62%. Quer isto dizer que a subida dos mercados ainda não está reflectida nos postos de abastecimento, sendo que no caso do gasóleo ainda se acentua mais esta diferença: enquanto o gasóleo aumentou 24,8% nos mercados internacionais só 12,3% de aumento se fizeram sentir no consumidor do mercado português. Estas diferenças parecem mostrar que ainda existe margem para os preços aumentarem.
Encher um depósito de gasóleo em Portugal é mais caro que encher um depósito de gasolina em Espanha. Como se sabe o peso dos impostos no preço final dos combustíveis é brutal em Portugal. Só para se ter uma ideia, o litro de gasolina custa menos de 60 cêntimos e o litro de gasóleo não chega aos 70 cêntimos.
A fiscalidade portuguesa atribui aos combustíveis, uma parte fixa (impostos sobre produtos petrolíferos) e outra variável (IVA a 21%). Será esta última aquela que mais beneficia as receitas do estado porque quanto mais caro é o combustível mais IVA é facturado.
O que se passa afinal com o petróleo? Há falta deste produto no mercado?
“Não há falta de petróleo. Há a convicção de que ele pode vir a faltar”. A subida em flecha dos preços do crude pode ser explicada com esta simplicidade. A crescente procura dos países emergentes, as tensões geopolíticas, a desvalorização do dólar e como não poderia deixar de ser a especulação dos mercados são os factores que explicam a crise.
Só para se ter uma ideia, a especulação representa mais de 20% do preço actual do barril de crude que anda perto dos 120 dólares em Nova Iorque.


Mas afinal o que é a especulação de que tanto se fala?


É a parte financeira da questão. Os fundos de investimento estão ávidos em criar mais-valias financeiras aos investidores, depois da crise americana no investimento imobiliário que se revela agora de alto risco. Apostam por isso em reforçar os bens mercantis, como alimentos e petróleo, condicionando artificialmente os preços destes bens. A especulação não irá dar tréguas enquanto o dólar se mantiver fraco, o que nos faz ter poucas esperanças do barril voltar a ter preços abaixo dos 100 dólares.



Até quando o governo irá fazer de conta que nada se passa?


Sendo os combustíveis uns dos factores de produção mais importantes para a generalidade da economia, torna-se incompreensível a atitude do governo português que prefere continuar a obter acréscimos sucessivos na receita, através da cobrança do IVA sobre os aumentos do preço impostos pelas gasolineiras, ao invés de baixar o imposto sobre os combustíveis.
Com esta forma de governar, lá se vai arranjando mais uns balões de oxigeno para salvaguardar o défice, não vá aparecer mais algumas despesas de última hora, fazendo de conta que aqueles que vão criando ainda alguma riqueza neste país, estão sólidos que nem uma rocha e que a economia vai de vento em popa.


Serrone, dia 4 de Maio de 2008

A crise dos alimentos

Nenhum dos países do globo está a salvo, porque ninguém pode deixar de se alimentar. É claro que serão os países mais pobres os que mais irão sofrer com esta crise, desde há muito anunciada, mas ignorada principalmente por todos aqueles que tinham o poder e a obrigação de a evitar: os países mais ricos e poderosos da Terra.
Mais de metade da população mundial (mais de 3 mil milhões de pessoas) vive com menos de dois dólares por dia para comprar alimentos. Os pobres gastam 80% a 90% do seu rendimento na alimentação, os ricos apenas gastam 10 a 20%. Estes números fazem toda a diferença. A fome atinge hoje 854 milhões de pessoas, número que poderá aumentar rapidamente para mil milhões devido à crise alimentar que estamos a assistir.
Um economista da Universidade de Chicago, citado pela revista o Economist, revelou que o aumento de um terço no preço dos alimentos reduz em três por cento o nível de vida nos países mais ricos e em 20% nos mais pobres.
Nesta primeira década do século vinte e um, estão criadas as condições para se acentuarem ainda mais as desigualdades entre países ricos e pobres. Em alguns países em desenvolvimento a falta de alimentos e a fome geram protestos crescentes que agudizam as relações entre governos e populações, levando estes últimos a fechar as exportações num cenário de escassez de oferta.
Na zona Euro a variação homóloga dos preços dos alimentos em Março deste ano relativamente ao igual período do ano transacto, sofreu um acréscimo de 3,6 pontos percentuais (de 2,6 para 6,2).

Preços dos alimentos na Europa poderão subir 39% este ano.

Segundo a Comissão Europeia, em vez do aumento médio de 10% previsto em Outubro último, as provisões apontam agora para um aumento médio na ordem dos 39%.O pior irá passar-se no segundo semestre deste ano, prevendo-se para este período um salto homólogo superior a 54%.
As razões apontadas pela Comissão Europeia: aumento da procura destes bens na China e na Índia e o papel cada vez maior de factores temporários, como a especulação nos mercados e as alterações climatéricas.

Mas afinal. o que está por detrás da crise?


-Agricultura abandonada devido a um desinvestimento de décadas neste sector na generalidade dos países do mundo.
-Décadas de preços artificialmente baixos e mercados distorcidos.
-Procura crescente por parte das economias emergentes, encabeçadas pela China e pela Índia, devido ao aumento do nível de vida daquelas populações.
-Subida dos custos de produção por causa da subida do barril de crude nos mercados.
- Procura crescente dos cereais para produção de etanol (bio-combustível).
-Baixa do preço do dólar.
-Muita especulação nos mercados de transacção.


As alterações climáticas


O clima é outro fator que reduziu a quantidade de alimentos produzida no mundo, segundo relatório da ONU divulgado recentemente.
As condições climáticas desfavoráveis devastaram culturas na Austrália e reduziram as colheitas em muitos outros países, em particular na Europa, segundo a FAO.
Segundo as previsões da FAO, as reservas mundiais de cereais caíram para o seu nível mais baixo em 25 anos com 405 milhões de toneladas em 2007/08, 5 % (21 milhões de toneladas) abaixo do nível já reduzido do ano anterior.


Especulação dos mercados


"Só os fundos de investimento em matérias-primas cotados na bolsa de Chicago controlam um valor recorde de 4,5 mil milhões de galões de trigo, milho e soja, ou seja, metade do total armazenado nos silos norte-americanos. Os investidores aceleraram as compras de cereais em 29% em 2007, como forma de compensar as perdas nos mercados accionistas e no dólar, decorrentes da crise do ‘subprime’. " A especulação veio agravar a pressão já existente sobre os preços, justificada inicialmente por causas estruturais. Os economistas estimam que os preços dos alimentos dificilmente poderão retornar aos valores de 2005 e que pelo menos durante a próxima década a crise se poderá manter.

O aumento galopante dos preços do petróleo e a crise dos alimentos são identificados como o maiores factores de risco para a inflação da zona euro.

Mas infelizmente em vias de desenvolvimento, a factura a pagar será maior. "No Bangladesh, por exemplo, mais de 500 mil militares passaram a comer batatas para diminuir a procura por arroz e trigo; no Egipto, em Marrocos, no Peru ou no Haiti os governantes enfrentam motins e protestos populares contra a escassez de alimentos básicos."Estamos a assistir a um fenómeno global ao qual ninguém deverá e ficar indiferente. Num futuro imediato mais de cem milhões de pessoas correm o risco de pertencer ao grupo dos seres humanos que passam fome e que correm risco de vida.

Como eu admiraria os governantes poderosos deste planeta, se tirassem dos orçamentos de defesa verbas avultadas para ajudar aqueles que mais precisam, independentemente da sua raça, crença religiosa ou cor política.

Serrone, 4 de Maio de 2008